Carlos Miranda assobiava 31 horas por dia. Assobiava tão diversas canções que eu nunca soube de onde aprendeu. Eu sentava em meu sofá manco, naquela casa fedorenta, acendia o cigarro e respirava. Respirava tão fundo que sempre me afogava, contemplava a estrada com movimentação sobre humana como se eu nunca tivesse saído dali, amassava ervas, sujava o chão, abria enlatados, apreciava a Gia Carangi e por fim, chorava. Chorava naquele mesmo sofá, chorava sem motivo com as ervas prendidas à minha mão, enquanto Carlos Miranda continuava lá, cantando aquela porra de canção que não acabava nunca.
Chegava a hora em que as ervas acabariam, os enlatados também e a minha vontade de sair de casa já havia se esgotado. Me aproximei de Carlos, ele cantava como sempre, coloquei meu dedo em sua cabeça e acariciei as penas verdes, então ele parou de cantar. Me olhou nos olhos e caiu duro na tela cinza da gaiola. Eu fique parado, sei lá quantas horas. Aquele pássaro tinha me custado 20 cruzeiros! Eu o comprei achando que merecia companhia, até descobrir o canto aterrorizante.
Não entendi porquê, não entendi. Talvez o canto fosse pra me dar vida, ou pra me tirar. Ou ele talvez quisesse atenção. Quando toquei-lhe a cabeça, tirei-lhe a vida. Começando a suspeitar que estava tirando a minha própria. E realmente estava. Não demorou muito para que eu também caísse duro na tela branca da minha casa. Com as ervas na mão e as costelas pra fora.