No início do meio do fim há um ônibus da Insular. O dia é 21 de dezembro de 2013, datando o solstício de verão, ou como costumamos falar por aqui, o sol de escaldar os miolos. Quem aqui vos fala é Francisco Raimundo, manezinho da ilha de Florianópolis do ano de 1979, pescador de nascença e sobrinho da Dona Bilica.
Agora estou sentado na saída do ônibus, com esse bloco de notas apertado e amassado entre meus dedos, enquanto duas senhoras me esmagam com sacolas da Loja Do Povo e conversam animadamente, até aqui tudo bem, se não fosse o calor insuportável que está fazendo agora, às 7h da manhã, numa fila que não há fim. Uma dessas senhoras, com o cabelo loiro - mas não loiro natural, aquele loiro que você sabe que é de farmácia, cor de amarelo-ovo e a raiz mais negra que o passado do meu tio Manoel - indagou para a outra morena, de cabelos encaracolados:
- Glória Maria, você viu, é?
- O que, Rita?
- A Eutanásia foi pro Campeche final de semana passado, conheceu um gaúcho musculoso, era só amor pra lá e pra cá, tinha até alterado o relacionamento no Facebook e quando foi ver! Adivinha?
- O que, mulher?
- Ele era virado!
- Gremista?
- Viado!
E com essa conversa desceram do ônibus, me fazendo notar algumas coisas: o verão é marcado por dias mais longos e (incrivelmente) quentes, trazem essa sensação de que o ano está no fim, de que haverá folga das pilhas de folhas na mesa do escritório, da correria desenfreada em busca do presente de natal pro infalível amigo secreto da empresa, e por falar em empresa, parece que o sol mora lá. A camisa manchada do Pereira ao meu lado, a água quente do bebedouro, o ar-condicionado estragado – que só liga no 27ºc. Lembra também a pele melecada de sorvete que se mistura com o cheiro de protetor solar e as tão típicas e rotineiras reclamações de elevador, que, convenhamos, existem todo dia, a qualquer temperatura.
Eu trabalho na Prefeitura de Florianópolis, aquele prédio na Tenente Silveira, que traz mais greves do que não sei o que, chega essa época de verão e é um zum zum zum pra lá e pra cá, metade da repartição vem, a outra metade emenda as férias e se divide entre praia e barzinhos. Pereira, meu colega de sala, é um cara que nunca está de mal com a vida, embora não tenha família e se dedique integralmente ao trabalho. Sempre levou tudo a sério, até quase perder o emprego por estar bêbado, por minha culpa, é claro, uma vez que ele não sabia que naquela garrafa de refrigerante tinha muito álcool. E acreditem, acabou pegando gosto pela coisa.
Dizia já meu avô que é no verão que a gente descarrilha, solta os desabafos e se lava no mar pra tirar as impurezas. E olha, ele tinha razão.
Escrevendo essas notas, esqueci meu ponto de ônibus. Meu trabalho já está a km de distância e não pude deixar de sorrir com isso. Oras, o verão também é essa época em que você precisa relaxar e tirar da mala do trabalho, na areia da praia, uma cerveja gelada e um óculos escuro, certo, Pereira?
segunda-feira, 9 de dezembro de 2013
segunda-feira, 25 de novembro de 2013
Achismo existencial
Às vezes acho que sufoco minha felicidade. Ela se apresenta de todas as formas, me oferece chá, vinho, batata frita, diz que quer me ver sorrir e eu simplesmente a ignoro. Sempre pensei que nasci um ser antissocial, imprudente, cheia de ''inoportunidades'' e Deus do céu! - se ele existir - deve ter pena de mim, poderia ter me dado um pouco de caráter ou talvez um pouco mais de exclamação ao invés de interrogações.
Dizem que o conhecimento é questionar, duvidar do que se está lendo ou ouvindo e ir atrás de verdades e fatos, mas cheguei num ponto em que não consigo mais me questionar. Me misturei tanto em mim mesma que já não sei o que sou e o que não sou. E moço, cê sabe, tem muitas coisas em mim que já deixaram de ser faz tempo. Que passaram apenas a existir e não sei o que é pior: o fio que segura a inexistência bruta ou o fio, que por um fio, está deixando cair as duvidas pra começar a permitir a existência.
Às vezes também acho que, apesar de tudo, eu tenho uma tendência a acabar sozinha.
Sempre foi assim.
Eu, o vento, os pássaros e aquela caderneta cheia de anotações e pensamentos.
E embora sozinha fisicamente, nunca sozinha na alma.
Trago no meu peito o sorriso de todos aqueles que amo.
O timbre da voz
O toque da pele
O paladar.
O amor que nunca morre.
Dizem que o conhecimento é questionar, duvidar do que se está lendo ou ouvindo e ir atrás de verdades e fatos, mas cheguei num ponto em que não consigo mais me questionar. Me misturei tanto em mim mesma que já não sei o que sou e o que não sou. E moço, cê sabe, tem muitas coisas em mim que já deixaram de ser faz tempo. Que passaram apenas a existir e não sei o que é pior: o fio que segura a inexistência bruta ou o fio, que por um fio, está deixando cair as duvidas pra começar a permitir a existência.
Às vezes também acho que, apesar de tudo, eu tenho uma tendência a acabar sozinha.
Sempre foi assim.
Eu, o vento, os pássaros e aquela caderneta cheia de anotações e pensamentos.
E embora sozinha fisicamente, nunca sozinha na alma.
Trago no meu peito o sorriso de todos aqueles que amo.
O timbre da voz
O toque da pele
O paladar.
O amor que nunca morre.
segunda-feira, 28 de outubro de 2013
Cordeiro em pele de lobo
Eles estão cheios de ideias preconcebidas, verdades absolutas, argumentos não questionados e mesmo afirmando que não, com as mentes manipuladas. Pra onde vai, meu Deus, pra onde? Esse achismo desenfreado, que se disfarça de certeza o tempo todo, todo tempo...
quarta-feira, 23 de outubro de 2013
Sentenças de praça
Via dentro de seus olhos minha alma refletida.
Via os medos incontidos,
os planos não planejados,
um amor ainda não latente,
via paz, conforto,
via eu em você,
você em mim,
e coraçõezinhos saltitando de um lado para o outro.
Via os medos incontidos,
os planos não planejados,
um amor ainda não latente,
via paz, conforto,
via eu em você,
você em mim,
e coraçõezinhos saltitando de um lado para o outro.
terça-feira, 3 de setembro de 2013
Carta de Setembro
Prezada e saudada Nina,
Os dias tem sido caóticos. Como se só acordar me causasse uma úlcera estomacal. Você sabe aquela sensação de que o ano está correndo como se fosse apenas um mês? É o que tem me acontecido. Não lembro da minha vida ontem, nem ante ontem, nem semana passada, é como se só houvesse o hoje e a vida não passasse de um borrão em que eu tenho tentado com todas as forças evitar.
Há certos dias desses que vejo o quão frágil a vida pode ser, como ela está suspensa em um fio fino, prestes a arrebentar, totalmente quebrável e irrecuperável. Mas dentro desses próprios momentos é como se não fizesse diferença. E se o fio arrebentasse? A vida cairia no chão ou passaria direto, como um fantasma que atravessa paredes? Seria melhor depois que ela se partisse em cacos ou pior? Não sei, Nina, não sei. Acho que não pegaria uma tesoura e testaria eu mesmo. Mesmo por todos os motivos, por toda a minha curiosidade, eu provavelmente jogaria a ideia embaixo do tapete e leria um livro naquela poltrona marrom encardida.
Ontem, perto da rua da saudade, enquanto tinha esses pensamentos, lembrei de você. Lembrei que poderia muito bem te mandar uma carta e te deixar sabendo dessas ideias sem sentidos, e mesmo que você não se importe – que talvez nem leia essa carta quando ver meu nome - quis colocar nesse papel branco, com umas manchas de café da manhã de ontem, e fingir que você ainda presta atenção no que sinto. Olha Nina, eu já te via por todos os cantos, em todas as sombras, em todas as músicas. Começou a ser demais pra minha cabeça, sabe? Eu quis ir embora antes que você fosse, só pra não ter que te ouvir dizendo adeus, porque eu sabia que você diria, mas não deu tempo e eu estava errado. Você foi antes do que eu pensava que iria e não disse nada, apenas foi. Tive certeza de que conhecias minha alma e leu no meu olhar a resposta pra tua fuga interior.
Naquela segunda eu sentei no banco da Praça Luiz Bandeira e devo ter ficado por muito tempo, porque lembro de estar tão quente que o sol queimava minha pele e quando me dei conta estava frio e escuro, mas eu não vi nada passar em minha frente, só aquela flor amarela saindo curvada do solo, como se o peso da curta vida já estivesse deixando-a de ombros carregados. Esperei lá por alguém chamado destino, que talvez me cutucasse no ombro e te trouxesse nos braços e gritasse “SURPRESA” no meio da praça, mas convenhamos, soa surreal, como eu costumo ser desde que nasci. Devo ter esperado assim durante uma semana e alguns dias, mas como disse no começo desta carta, não lembro muito bem dos dias, pode ter sido um mês, dois meses, aliás, quanto tempo faz que você partiu, moça? Julgando pelo meu coração, faz 10 anos. E talvez seja.
Nina, você tem que saber dessas coisas, de como a vida pesa e ao mesmo tempo é fraca e frágil, de como pode ser longo o tempo de alguém que nunca deixa de amar, de como pode ser curto o tempo de quem desaprendeu a viver, e de como a espera por outra pessoa pode ser um processo incurável. Você precisa saber, morena, precisa.
Eu queria ir embora também. Todo mundo quer ir em algum momento.
Mas é o ficar que faz diferença.
Não sei teu endereço, não sei onde estás, não sei nem se o fio da tua vida ainda está intacto, por isso esta carta vai ter o endereço da rua da saudade, do bairro da praça, com o número do solo daquela flor.
Algo entre o nós ainda tem que permanecer, qualquer coisa, nem que seja um papel manchado de café.
Com sincero apreço por cada parte de ti,
Seu outro eu.
Os dias tem sido caóticos. Como se só acordar me causasse uma úlcera estomacal. Você sabe aquela sensação de que o ano está correndo como se fosse apenas um mês? É o que tem me acontecido. Não lembro da minha vida ontem, nem ante ontem, nem semana passada, é como se só houvesse o hoje e a vida não passasse de um borrão em que eu tenho tentado com todas as forças evitar.
Há certos dias desses que vejo o quão frágil a vida pode ser, como ela está suspensa em um fio fino, prestes a arrebentar, totalmente quebrável e irrecuperável. Mas dentro desses próprios momentos é como se não fizesse diferença. E se o fio arrebentasse? A vida cairia no chão ou passaria direto, como um fantasma que atravessa paredes? Seria melhor depois que ela se partisse em cacos ou pior? Não sei, Nina, não sei. Acho que não pegaria uma tesoura e testaria eu mesmo. Mesmo por todos os motivos, por toda a minha curiosidade, eu provavelmente jogaria a ideia embaixo do tapete e leria um livro naquela poltrona marrom encardida.
Ontem, perto da rua da saudade, enquanto tinha esses pensamentos, lembrei de você. Lembrei que poderia muito bem te mandar uma carta e te deixar sabendo dessas ideias sem sentidos, e mesmo que você não se importe – que talvez nem leia essa carta quando ver meu nome - quis colocar nesse papel branco, com umas manchas de café da manhã de ontem, e fingir que você ainda presta atenção no que sinto. Olha Nina, eu já te via por todos os cantos, em todas as sombras, em todas as músicas. Começou a ser demais pra minha cabeça, sabe? Eu quis ir embora antes que você fosse, só pra não ter que te ouvir dizendo adeus, porque eu sabia que você diria, mas não deu tempo e eu estava errado. Você foi antes do que eu pensava que iria e não disse nada, apenas foi. Tive certeza de que conhecias minha alma e leu no meu olhar a resposta pra tua fuga interior.
Naquela segunda eu sentei no banco da Praça Luiz Bandeira e devo ter ficado por muito tempo, porque lembro de estar tão quente que o sol queimava minha pele e quando me dei conta estava frio e escuro, mas eu não vi nada passar em minha frente, só aquela flor amarela saindo curvada do solo, como se o peso da curta vida já estivesse deixando-a de ombros carregados. Esperei lá por alguém chamado destino, que talvez me cutucasse no ombro e te trouxesse nos braços e gritasse “SURPRESA” no meio da praça, mas convenhamos, soa surreal, como eu costumo ser desde que nasci. Devo ter esperado assim durante uma semana e alguns dias, mas como disse no começo desta carta, não lembro muito bem dos dias, pode ter sido um mês, dois meses, aliás, quanto tempo faz que você partiu, moça? Julgando pelo meu coração, faz 10 anos. E talvez seja.
Nina, você tem que saber dessas coisas, de como a vida pesa e ao mesmo tempo é fraca e frágil, de como pode ser longo o tempo de alguém que nunca deixa de amar, de como pode ser curto o tempo de quem desaprendeu a viver, e de como a espera por outra pessoa pode ser um processo incurável. Você precisa saber, morena, precisa.
Eu queria ir embora também. Todo mundo quer ir em algum momento.
Mas é o ficar que faz diferença.
Não sei teu endereço, não sei onde estás, não sei nem se o fio da tua vida ainda está intacto, por isso esta carta vai ter o endereço da rua da saudade, do bairro da praça, com o número do solo daquela flor.
Algo entre o nós ainda tem que permanecer, qualquer coisa, nem que seja um papel manchado de café.
Com sincero apreço por cada parte de ti,
Seu outro eu.
sábado, 27 de julho de 2013
Texto que nunca cheguei a escrever
Te projetei tanto no frio, no vento, no mar que quando veio o verão você já não existia, derreteu, murchou, se apagou, foi embora como alguém que nunca chegou. E eu que achava que te teria por todas as estações, por todos os janeiros e dezembros, sorri e me aconcheguei no canto da sala, também como alguém que perdeu um amor que nunca amou.
sexta-feira, 12 de julho de 2013
Já passou de 120 decibéis
O silêncio. Mesmo o silêncio não fica em silêncio, traz ruídos à ele mesmo, o chacoalha, não o deixa trabalhar. É preciso outro foco, algo que tire o silêncio dos ouvidos da quietude. Talvez o mar, os pássaros, ou talvez você possa cantar baixinho aos meus ouvidos.
Numa mesa de café, não converse comigo, ouvirei as vozes de outras pessoas, enquanto olho para o formato de sua boca, o brilho fosco de seus olhos, escuto sobre os problema de família da mesa ao lado, a risada exagerada da negra do outro lado do caixa, o silêncio de suas palavras não ditas.
Seu sorriso enigmático sobre meus próprios pensamentos, que ninguém sabe, mas que meu olhar os sussurra pra você. Nossos encontros sem palavras significam mais do que se eu fizesse 4,5 ou 6 declarações debaixo de seu prédio. Minhas divagações nas ondas sonoras passam de 120 decibéis, onde tu te encontra, onde só tu consegue alcançar antes do maldito silêncio eterno, Helena.
Mas sabemos, eu e tu, que nos encontramos no silêncio e por lá findaremos.
Na frieza
Do que não pode
Ser ouvido.
Numa mesa de café, não converse comigo, ouvirei as vozes de outras pessoas, enquanto olho para o formato de sua boca, o brilho fosco de seus olhos, escuto sobre os problema de família da mesa ao lado, a risada exagerada da negra do outro lado do caixa, o silêncio de suas palavras não ditas.
Seu sorriso enigmático sobre meus próprios pensamentos, que ninguém sabe, mas que meu olhar os sussurra pra você. Nossos encontros sem palavras significam mais do que se eu fizesse 4,5 ou 6 declarações debaixo de seu prédio. Minhas divagações nas ondas sonoras passam de 120 decibéis, onde tu te encontra, onde só tu consegue alcançar antes do maldito silêncio eterno, Helena.
Mas sabemos, eu e tu, que nos encontramos no silêncio e por lá findaremos.
Na frieza
Do que não pode
Ser ouvido.
domingo, 23 de junho de 2013
Nelson, Chico, Jobim e cia
Essa vida boemia! O velho pensou, com ponto de exclamação e tudo. Batia o pé no chão, acompanhando o ritmo da música de velha guarda tocando lá atrás, bem atrás, depois do dono bar, aquele gordo com a camisa manchada e os poucos cabelos oleosos. Essa vida dura e boemia! Pensou de novo, desta vez, jogando cinzas do cigarro inacabado na poça de lama. Bebeu sua cerveja, se despediu de seus não-amigos bêbados e saiu cambaleando pela rua, às 3 da madrugada, suspirando e pensando: 89 anos dessa vida boemia!
domingo, 9 de junho de 2013
Fuga interior
Abri o buraco pela parte superior e sai. Sai de mim mesma, aproveitei o meu dia, sorri para as pessoas na rua, fiz carinho em cachorros solitários, observei os pássaros, senti o vento no rosto, me lambuzei com um sorvete, ri sozinha, peguei um ônibus pra lugar nenhum e depois voltei pro meu próprio corpo, que o dia inteiro ficara preso numa sala, olhando a vida passar pela janela.
domingo, 19 de maio de 2013
Pintura d'alma
Vou pintar sua alma com canetinha hidrográfica. Pintar teus olhos de azul, para poder mergulhar neles, como se fosse o mar do Caribe. Pintar teu coração de verde, só para contrariar a regra do clichê, contrariar o mundo e dizer que teu amor é mais lindo por não ser vermelho. Pintarei seu cérebro com sete cores, para teres uma mente aberta, imaginação e vida. E sua alma, sua pequena alma, saltitante, inapreensível, será branca, porque o branco é a junção de todas as cores, é a pureza, a beleza, a simplicidade, é tudo o que vejo em você.
domingo, 21 de abril de 2013
Um texto sobre a opinião do pirata
Não sou pessimista, rapaz. Só prevenido, só realista, só esperando-pelo-que-provavelmente-vai-acontecer. É mais válido nenhum passarinho na mão - porque você largou e os deu liberdade - do que ter e os deixar fugir, entende? Melhor acordar de manhã, num dia frio, e não esperar que tenha alguém ali e em um momento ter, assim, do nada, como uma rajada de vento num dia quente. Imprevisível, inesperado. Melhor um presente dado numa quarta-feira chuvosa e não-importante, do que um presente de natal, sabe?
Sou só um pirata, sei ver as coisas boas - e simples -, assim como sei dizer que um dia não é bom. Tapa-olho, tapa-realista.
Sou só um pirata, sei ver as coisas boas - e simples -, assim como sei dizer que um dia não é bom. Tapa-olho, tapa-realista.
Jéssica e seus desenhos
Um risco aqui, outro lá
Um pouco de vida ali, um pouco de alma acolá.
Luz e sombra
Soul e blues.
Um pouco de vida ali, um pouco de alma acolá.
Luz e sombra
Soul e blues.
Oh, tão artístico quanto Vinci
Oh, tão revolucionário quanto os iluministas
Oh, baby lemonade!
Tuas belezas vem de onde?
Oh, tão revolucionário quanto os iluministas
Oh, baby lemonade!
Tuas belezas vem de onde?
1898? 1877? 1593?
Mil quinhentos e desenha pra mim?
Mil quinhentos e desenha pra mim?
Homenagem à minha amiga, Jéssica Roriz, que faz desenhos incríveis, abaixo o link do trabalho dela.
Página no Facebook, curta você também. https://www.facebook.com/pages/Oh-Baby-Lemonade/153724414777821?fref=ts
domingo, 14 de abril de 2013
5 minutos de agonia
- Companhia de assistência técnica da SINTEL. Como posso ajudar?
- Olá.
- Como posso ajudar, senhor?
- Meu aparelho de TV não liga mais.
: - O senhor já tentou desligar e ligar novamente, senhor?
- Só 34 vezes.
- Certo, preciso que siga o seguinte protocolo...
- Ah, não! Mais um?
- Desculpe-me?
- A vida, cheia de protocolos, cheia de regularidades, de contratos, de como você deve se vestir,andar, comer, o que deve ouvir, em que deve votar, de quem deve gostar. É preciso procotolo com uma máquina também?
- Senhor, tire seu aparelho da tomada por 5 minutos, e depois religue.
- Bom seria se a vida funcionasse desse jeito, quando você estivesse de saco cheio, apertaria um botão e quando quisesse, ligaria e todos os problemas sumiriam.
- Preciso que o senhor colabore para que nosso sistema consiga ajudá-lo.
- Tudo bem. A senhora é da Bahia?
- (...)
- O sotaque te entrega.
- O aparelho já está com as luzes ligadas?
- Não. Tudo apagado. Já disse, minha vida não funciona assim. As coisas são difíceis É preciso lutar, persistir, tomar um café, pegar um bom livro e ter paciência. Não adianta. Vou pegar um café pra você. Preto ou com leite?
- Senhor, pegue o controle e tente ligar por ele.
- Tudo bem. Com açúcar ou sem? Espero que seja a primeira opção. A vida é amarga demais pra se recusar açúcar no café.
- Se você continuar assim, não conseguirei fazer meu trabalho!
- A senhora está de má vontade com um cliente?
- Preto, sem açúcar.
- Ih...
- Tentou ligar com o controle?
- Nada. Tudo apagado, sem ânimo, sem cores, sem gosto, como seu café.
- Creio que seu aparelho precisa ser trocado, pois está...
- VIU! Agora você entendeu. Não tem mais jeito, é preciso nascer de novo, trocar de corpo, de alma.
- Moço...
- Eu falei, mas não dá de fazer isso, agora é preciso aguentar por mais 30 anos, contando com o histórico cardíaco da minha família.
- OLHA, EU SEI QUE A VIDA É UMA MERDA, TÁ LEGAL? EU SEI. EU TRABALHO NUM EMPREGO DE MERDA E AINDA TENHO QUE AGUENTAR PESSOAS COMO VOCÊ ME LIGANDO, COMO SE EU TIVESSE QUE TE AJUDAR A TER UMA VIDA MELHOR, QUANDO É A MINHA QUE PARECE UM APARELHO COM PROBLEMA CONSTANTE.
- Olha o que o café preto pode fazer com uma pessoa. Eu avisei. Moça, vou deixar um e-mail para a empresa dizendo que fui bem atendido e que meu problema foi resolvido. Então, a senhora pode vir pra São Paulo e colocar um pouco de açucar nesse cafe e nessa vida, tudo bem? Moça? Alô? Alô?
sábado, 13 de abril de 2013
A refletora de almas
Era um dia chuvoso e havia esquecido o guarda chuva. Seus cabelos dourados pingavam sem parar, exatamente como sua alma. Tirou uns trocados perdidos no bolso e jogou no chapéu do moço de cabelos compridos, que com uma viola despedaçada, tocava bossa nova. Andava desviando das poças, o olhar absorto no chão sujo, até chegar no ponto que sempre parava. Colocava a mão no vidro e olhava os novos livros lançados, desejando-os, forçando os olhos para ler os comentários na capa de trás, forçou tanto que viu seu reflexo no vidro, nunca havia reparado, pensou. Olhou seu rosto molhado, seus olhos fundos, sua pele pálida, tocando o próprio rosto. Como pude eu, tão analisadora de almas alheias, pensamentos alheios, histórias de personagens ficticios, moradora de outro planeta, deixar o que eu tinha de mais importante ficar sem cor? Branco, leitoso, viscoso, repugnante. Minha alma era vermelha, exaltou-se, cor de fogo, cor de raiva, de amor, como pude, como pude? Pensou, em gritos, em súplicas, em choros sem lágrimas. Aterrorizando-se pelo resto da vida, cada vez que chovia e via seu reflexo nas poças.
sábado, 6 de abril de 2013
Com sobrenome vida
Cecìlia sorria. O sorriso era Cecília. Era uma alma livre, como um pássaro que acaba de fugir de uma gaiola e tem um céu azul só pra ele. Cecília não mentia, porque era a verdade em pessoa. Morava num planeta só dela, embora vivesse na Terra. Via o lado bom em tudo, mesmo que não houvesse. Era simples e misteriosa ao mesmo tempo. Tinha brilho nos olhos, ou melhor, tinha olhos nos brilhos. Se feria rápido, porque a alma livre pode bater em alguns vidros ''vezenquando''.
Morreu Cecília. A morte ganhou vida, porque Cecília conseguia brilhar mesmo na escuridão. E uma alma livre não pode ser presa nem por uma gaiola, nem pela falta de vida.
quinta-feira, 28 de março de 2013
Ato premeditado
Sinta a fumaça percorrendo a curvatura de seu nariz, enchendo o ambiente. Continue me olhando desse jeito cortante, expelindo seus sentimentos com essa boca cor de sangue. O movimento de seus dedos impacientes sobre a coxa nua. Jogue o cigarro no chão, pise nele com raiva. Eu sei, eu sei. Abra a boca como quem hesita dizer verdades. Já estamos aqui há muito tempo e essa sua fumaça de cigarro me entorpece.
- Quer pedir um café?
- Peça. - Disse, soltando a fumaça pelo ambiente, me cortando com o olhar e jogando o cigarro no chão.
Quando fores embora, pegar o ônibus, o avião, o navio, o caminho, me avisa. Me chama. Deixa eu dar o último adeus, um último sentido para o que tínhamos.
Não, não avisarei. É melhor não ver, não tocar, deixar a lembrança doce ao invés de fazer uma outra amarga, entende?
Eu saberei, então. Te tocarei e farei uma lembrança ainda mais doce.
Não, não avisarei. É melhor não ver, não tocar, deixar a lembrança doce ao invés de fazer uma outra amarga, entende?
Eu saberei, então. Te tocarei e farei uma lembrança ainda mais doce.
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013
Tenta.
O adeus é muito fácil
Bom mesmo é a aventura do permanecer
A loucura de deixar o amor
Fica.
Como um livro empoeirado
Que sempre traz um sorriso.
O adeus é muito fácil
Bom mesmo é a aventura do permanecer
A loucura de deixar o amor
Fica.
Como um livro empoeirado
Que sempre traz um sorriso.
(Sofá)
Um café, um dia cinza, um bafo quente
Ping, ping, ping.
A neve derretia, o livro acabaria
A nostalgia apertaria.
terça-feira, 26 de fevereiro de 2013
(Doía)
O vento assobia, a vida doída, o frio doído, o amor doado
Os versos acabados, as feridas entocadas, a poesia abandonada.
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013
O assobiador
Carlos Miranda assobiava 31 horas por dia. Assobiava tão diversas canções que eu nunca soube de onde aprendeu. Eu sentava em meu sofá manco, naquela casa fedorenta, acendia o cigarro e respirava. Respirava tão fundo que sempre me afogava, contemplava a estrada com movimentação sobre humana como se eu nunca tivesse saído dali, amassava ervas, sujava o chão, abria enlatados, apreciava a Gia Carangi e por fim, chorava. Chorava naquele mesmo sofá, chorava sem motivo com as ervas prendidas à minha mão, enquanto Carlos Miranda continuava lá, cantando aquela porra de canção que não acabava nunca.
Chegava a hora em que as ervas acabariam, os enlatados também e a minha vontade de sair de casa já havia se esgotado. Me aproximei de Carlos, ele cantava como sempre, coloquei meu dedo em sua cabeça e acariciei as penas verdes, então ele parou de cantar. Me olhou nos olhos e caiu duro na tela cinza da gaiola. Eu fique parado, sei lá quantas horas. Aquele pássaro tinha me custado 20 cruzeiros! Eu o comprei achando que merecia companhia, até descobrir o canto aterrorizante.
Não entendi porquê, não entendi. Talvez o canto fosse pra me dar vida, ou pra me tirar. Ou ele talvez quisesse atenção. Quando toquei-lhe a cabeça, tirei-lhe a vida. Começando a suspeitar que estava tirando a minha própria. E realmente estava. Não demorou muito para que eu também caísse duro na tela branca da minha casa. Com as ervas na mão e as costelas pra fora.
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013
Tão branca sobre o luar
Com sua alma a flutuar
Sobre o viril...
Esquece, sou tão ruim com rimas
Quanto o Simas.
(Viu?)
segunda-feira, 28 de janeiro de 2013
Apreço pelo Azul
Azul do céu
Azul do mar
Azul dos teus olhos
Azul da liberdade inalcançável.
quarta-feira, 23 de janeiro de 2013
10 à eternidade
10. Caos. Eu sinto muito por ter tão pouco tempo pra te mostrar o que eu sinto por 18 anos. 09. Desespero. Me desculpe por não ter sido quem você queria que eu fosse. 08.Angústia. Tu gostava quando eu sentava pra ver TV contigo e prestava atenção nas tuas explicações mirabolantes sobre a vida? 07. Ansiedade. Eu te desapontava quando não te acompanhava nas pescas e não queria aprender a cozinhar, né? (Suas lasanhas eram deliciosas, eu juro). Eu sinto muito por isso. 06. Não sei se posso aguentar mais, quero sair correndo, mas preciso ficar do seu lado. 05. Arrependimento. Se eu soubesse, ficaria do teu lado desde o primeiro dia em que te conheci até hoje, mas algo me distanciava disso, eu tentei, tentei, sim. 04. Sabias que os cães não sabem distinguir futuro e passado? Só vivem o presente. 03. Estou aqui, você consegue me ouvir? Aperte minha mão forte, não iria por nada. 02. Eu... Vou sentir sua falta. Último dia. Morte. Desculpe por nunca ter dito, eu te amo com minha própria vida. Pode ir agora.
segunda-feira, 21 de janeiro de 2013
Uma parcela das pessoas passa a vida tentando negar quem são, a outra parcela passa a vida tentando descobrir e quando descobrem, passam a negar também.
quarta-feira, 2 de janeiro de 2013
Pensamentos em pontos finais
O sussurro do vento. O bafo quente no vidro. O pé gelado. O silêncio da madrugada. As memórias incessantes. O passado batendo à porta. A casa de madeira. O fogão de lenha já apagado. O fleuma de uma cidade pequena. Os demônios ainda não nascidos. A proteção do colo da mãe. O cheiro -ainda- sem álcool do pai. O ranger de paz do teto. O caminhar do animais pela grama. A respiração do cão. A certeza da presença da família pela manhã. Noites sem pesadelos. O medo que ainda não havia surgido. Plena satisfação. O remorso por não poder voltar no tempo. Um sorriso por ter aproveitado o suficiente. Um outro sorriso ainda maior por poder lembrar. Uma tristeza abaladora por não ter vivido apenas o passado e somente ele, sem o presente. A sensação de poder. De controlar a vida e a morte. Sono profundo.
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