No início do meio do fim há um ônibus da Insular. O dia é 21 de dezembro de 2013, datando o solstício de verão, ou como costumamos falar por aqui, o sol de escaldar os miolos. Quem aqui vos fala é Francisco Raimundo, manezinho da ilha de Florianópolis do ano de 1979, pescador de nascença e sobrinho da Dona Bilica.
Agora estou sentado na saída do ônibus, com esse bloco de notas apertado e amassado entre meus dedos, enquanto duas senhoras me esmagam com sacolas da Loja Do Povo e conversam animadamente, até aqui tudo bem, se não fosse o calor insuportável que está fazendo agora, às 7h da manhã, numa fila que não há fim. Uma dessas senhoras, com o cabelo loiro - mas não loiro natural, aquele loiro que você sabe que é de farmácia, cor de amarelo-ovo e a raiz mais negra que o passado do meu tio Manoel - indagou para a outra morena, de cabelos encaracolados:
- Glória Maria, você viu, é?
- O que, Rita?
- A Eutanásia foi pro Campeche final de semana passado, conheceu um gaúcho musculoso, era só amor pra lá e pra cá, tinha até alterado o relacionamento no Facebook e quando foi ver! Adivinha?
- O que, mulher?
- Ele era virado!
- Gremista?
- Viado!
E com essa conversa desceram do ônibus, me fazendo notar algumas coisas: o verão é marcado por dias mais longos e (incrivelmente) quentes, trazem essa sensação de que o ano está no fim, de que haverá folga das pilhas de folhas na mesa do escritório, da correria desenfreada em busca do presente de natal pro infalível amigo secreto da empresa, e por falar em empresa, parece que o sol mora lá. A camisa manchada do Pereira ao meu lado, a água quente do bebedouro, o ar-condicionado estragado – que só liga no 27ºc. Lembra também a pele melecada de sorvete que se mistura com o cheiro de protetor solar e as tão típicas e rotineiras reclamações de elevador, que, convenhamos, existem todo dia, a qualquer temperatura.
Eu trabalho na Prefeitura de Florianópolis, aquele prédio na Tenente Silveira, que traz mais greves do que não sei o que, chega essa época de verão e é um zum zum zum pra lá e pra cá, metade da repartição vem, a outra metade emenda as férias e se divide entre praia e barzinhos. Pereira, meu colega de sala, é um cara que nunca está de mal com a vida, embora não tenha família e se dedique integralmente ao trabalho. Sempre levou tudo a sério, até quase perder o emprego por estar bêbado, por minha culpa, é claro, uma vez que ele não sabia que naquela garrafa de refrigerante tinha muito álcool. E acreditem, acabou pegando gosto pela coisa.
Dizia já meu avô que é no verão que a gente descarrilha, solta os desabafos e se lava no mar pra tirar as impurezas. E olha, ele tinha razão.
Escrevendo essas notas, esqueci meu ponto de ônibus. Meu trabalho já está a km de distância e não pude deixar de sorrir com isso. Oras, o verão também é essa época em que você precisa relaxar e tirar da mala do trabalho, na areia da praia, uma cerveja gelada e um óculos escuro, certo, Pereira?
Nenhum comentário:
Postar um comentário