quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Carta de janeiro

Nina,

Peguei o metro. A cidade passa rápido. As arvores passam rápido. Tudo corre. Só eu que fico parada. Vejo tudo passar voando, como se fugissem de mim.
Não sei, talvez andem fugindo.
Nina! Será que fogem?
Ando delirando.
Suspiros.

Recebeu a carta que te mandei mês passado? Te vi em meus sonhos e ai de manhã abri o jornal, todo amassado porque o carteiro não gosta de mim, e você estava lá. Sorrindo. Como se fosse propaganda de creme dental. Como se soubesse que eu ia te ver e sorrisse com desdém, só pra me mostrar que, nem que eu tente de todas as formas fazer o contrário, você vai continuar sendo o primeiro pensamento da manhã.

Achei proposital. Então to te mandando essa outra carta.
Depois que peguei o jornal, joguei no lixo, não queria correr o risco de olhar pro seu sorriso de novo, não daquele jeito.
Troquei de calça e caminhei sem nem saber pra onde. Tentei me convencer de que você já tinha ido embora da minha cabeça. Tinha nada.
Eu continuava mentindo pra mim mesma.
Você me assombrava como Freddy Krueger, só que ainda pior.

Nina, o começo foi bom. Aquela saudade de quem tem esperanças. Aquela saudade que bate no peito, rebate, quica e volta com tudo. Trazendo aquela adrenalina dos saltos.
Aí depois para, surge uma força e ela fica em repouso, em movimento retilíneo uniforme, porém não vai embora, fica ali, seca, oca, que incomoda e não liga de incomodar.

Fui chutando as pedras do caminho e comprei uma passagem pro primeiro metro do dia.
Analisei as coisas fugindo de mim e resolvi que seria uma boa escrever isto.
Recebe essa carta e junta com todas as outras que eu já te mandei, você nem abre, provavelmente. Se abre, fica rindo com esses dentes cheios de colgate.

Saudades. Saudades. Saudades e saudades e saudades ocas e cheias de mágoas.

Do seu outro eu.

sábado, 3 de janeiro de 2015

Procura-se

Num rompante, Lúcia, menina magrela entra correndo na sala, exasperada e começa a gaguejar:

- Você... Não... Sabe...
- Lúcia, respire. - Não dei muita importância, queria mais era terminar o livro que estava lendo, Sherlock estava explicando a solução de um crime e eu não queria me distrair.
- Nina, é importante. Tire os olhos desse livro por um instante, por favor? - Fechei o livro, contrariada.
- Nunca é importante, mas fale.
- O Zé estava conversando com o Chico.
- Uhum...
- E ele disse algumas coisas bem interessantes.
- Uhum...
- Pode, pelo menos, mostrar interesse?
- Você divaga muito, menina. Fale logo.
- Tudo bem...
- Anda!
- Ai, Nina, você está estressada demais ultimamente, mas ok, escute, vou falar... Ok... Tá bom. Foi assim ó: o Zé conversou com o Chico e o Saul ouviu, e bem, você sabe como é o Saul, caidinho por mim, com aqueles olhos castanhos esverdeados que...
- Lúcia.
- Ok, ok! O Saul me contou que os dois estavam no estacionamento do Colégio da Santa Maria conversando através de sussurros e ele acabou ouvindo. O Chico confessou ao Zé que não queria mais sair toda sexta a noite pra festa da praça, que não se interessava mais em sair a noite ou ficar as tardes na varanda olhando as garotas, que ele estava em outro negócio, O Zé pirou, encheu de desaforos o pobre menino, nem queria deixar ele se explicar... Mas aqui vai a parte importante.
- (...)
- Ok. Ele confessou que nada mais lhe enche os olhos, porque tudo o que deseja ver se encontra nos verdes dos teus olhos, Nina. Que nada mais faz sentido se você não está por perto, que tudo o que quer fazer é estar no quarto, lendo os mesmos livros que tu lê só pra poder conversar contigo, que nada mais lhe importa fazer se não for pra ti. Disse também que não quer mais esperar nas varandas, nem na praça, nem em qualquer outro lugar. Ele não quer mais esperar. Disse que ao cair da tarde, vinha correndo aqui a tua casa pra falar com teu pai, que queria casar contigo, Nina! O Chico!
- Ele disse com essas palavras?
- Não sei bem se com essas, mas falou.

Dei um jeito de me livrar de Lúcia. Ainda faltava vinte para as seis da tarde, alcancei a maleta mais próxima no armário e meti lá todos os livros de que gostava, pulei a janela do quarto e segui o rio até a floresta do Mayne.
No caminho me perguntei o porquê daquilo. Amava Chico mais do que qualquer coisa que já tivesse amado na vida. Mas mais que amá-lo, odiava amá-lo.
19 anos em uma fuga desesperada do amor.
Fui embora e nunca mais voltei. Ainda hoje na cidade, há um cartaz que procura meu nome.
Ainda hoje na cidade, há um rapaz que procura algo que nunca chegou a ter.