E não te achando e não te procurando, vou esbarrando em esquinas da cidade com a lembrança de um rosto que, de tanto não ver, já esqueci.
domingo, 16 de agosto de 2020
Virginia e o mar
Tal qual Virginia Woolf, ela estava parada frente ao mar. As ondas batendo geladas em seus pés descalços. Tal qual a autora, ela sentia uma força que a puxava para dentro do mar, para o barulho do quebrar das ondas, da espuma branca que se espalhava pela areia. Se perguntava o que havia naquela infinitude azul escuro. Se havia mais do que ela poderia saber. Se havia mais do que ela conhecia. Se havia algo lá que talvez não pudesse ter aqui.
Sentia que seu tempo caminhando na areia estava acabando, que precisava tomar decisões logo. Sua cabeça doía e só havia um jeito de fazer parar de doer.
Mas deu meia volta e seguiu seu caminho na areia branca. Precisava resolver umas coisas em sua máquina de escrever e na sua vitrola antes que pudesse pensar nas famigeradas decisões.
quarta-feira, 1 de julho de 2020
Olhos de Jabuticaba
80 bpm?
100?
Não sei, mas batia forte, enquanto os olhos sorriam e lacrimejavam e pulsavam.
Eu sorria junto.
Doía de um jeito bom saber que eu existia em alguém do jeito que eu existia nele.
Naqueles olhos de jabuticaba, nos cabelos enroladinhos, nas mãos limpas e com veias, nos lábios cheios, na pele macia e queimada pelo sol, eu me encontrava. Sabia que, de alguma forma, eu havia parado de implorar por coisas que deviam ser me dadas naturalmente. E estavam sendo dadas.
Existir desse jeito, tão bonito, perante os olhos e os sentimentos de alguém era reconfortante. Como ouvir o mar e sentir o vento.
De J,
Para A.
sexta-feira, 3 de abril de 2020
Trechos quaisquer
domingo, 19 de janeiro de 2020
19 de janeiro
sábado, 4 de janeiro de 2020
Baque
quarta-feira, 1 de janeiro de 2020
Parodoxo rosal
Era cercada dessas rosas que já perderam a cor e já não mais renascem. Os brotos ainda muito pequenos para serem chamados de flor. Por isso, e só por isso, Catarina era única naquele jardim.
Contemplada, cheirada, admirada por todos. Brilhante, de cor vívida, com gotas do orvalho da manhã deslizando por suas pétalas, com todo o cheiro possível que uma rosa pode ter, exalando por entre os passeios da cidade.
Catarina já tinha sido broto e seria uma daquelas rosas murchas e sem cor, eventualmente. E por esse evento futuro, certo, mas longíquo, ela aproveitava todos os segundos de sua vida jovem e plena. Não que Catarina quisesse que os brotos não crescessem ou que outras morressem para que ela continuasse brilhando. Não exatamente. Queria que todos, juntas, pudessem fazer parte daquele jardim. Mas ao mesmo tempo não queria ter que dividir a atenção dada com outras.
Catarina era um paradoxo. Aqui, caro leitor, você já deve ter entendido que há entrelinhas. Então posso afirmar, tranquilamente, que ela era ao mesmo tempo um néctar doce, quente, fervilhante onde um beija-flor adoraria saciar-se. Mas havia um quê de veneno. Um veneno lacinante, que mataria uma presa em exatos trinta segundos e que se ela não cuidasse, a mataria também.
Rosa carnívora.
Rosa que, sabendo seu destino, alimenta e posteriormente mata. Mata, porque morre também.