sábado, 23 de novembro de 2019

Morgana


Eu dei um nome pra ela. Morgana. Porque Morgana parece nome de vilã de filme de terror, daquelas que te matam no fim da película.

Era isso que ela fazia comigo, me matava um pouco todo dia. Me fazia enxergar o mundo através de uma lente suja, cinza esmaecida.
Às vezes eu via tudo muito rápido, como se o mundo corresse e eu tivesse ficando para trás. Mas por vezes, também era tudo em câmera lenta, e só eu corresse, sozinha, sem rumo. Ouvindo as pessoas, as risadas, as conversas, como se eu estivesse muito distante. Eu não via sentido em muita coisa desde que Morgana veio. Não queria comer, porque a comida não tinha graça. A vida lá fora, também não. O único lugar que me trazia o mínimo de segurança era minha cama, pois ali não tinha o olhar do Outro, não tinha comparação. Só existia eu. E Morgana.

Às vezes ela sussurrava em meu ouvido coisas que, no fundo, eu sabia que não eram verdades. Dizia pra mim que as coisas nunca fariam sentido, que nem sabia como eu havia parado ali e como eu permanecia ali. Dizia pra eu ir embora. “É melhor ir embora, talvez do outro lado, você arranje algum sentido pra esse vazio”. Eu pensava em ir, mas desistia. Me achava covarde demais até para sair dali. Acordava no meio da noite, com a respiração ofegante, a sensação de morte.

E então,  de algum lugar, me veio a vontade de procurar ajuda. Eu não gostava de quem eu era com a presença de Morgana constantemente em minha vida e eu decidi que precisava que ELA fosse embora, não eu. Tomei umas pílulas que caíram em minhas mãos e conversei com um par de olhos que sabia exatamente o que falar pra me ajudar.

Seis meses sem Morgana. A falta ainda existe em meu peito, talvez sempre exista, mas eu escolho o significado e o que faço dela. O mundo ainda não tem cores vívidas, mas também não é cinza. O ritmo do mundo acompanha o meu e eu me sinto parte dos corpos, dos olhares e dos sorrisos que andam pelos ônibus, estradas e recintos. E esse vento que bate em meu rosto e assopra meus cabelos me faz lembrar que eu estou viva. Que escolhi estar viva. E que escolho todo dia, apesar de Morgana.

sábado, 5 de outubro de 2019

o reflexo da luz azul ondulava em seu rosto. o cheiro do cloro inundava seu nariz. 
estava envolta em um ambiente que só trazia conforto. 
mas tinha medo de até quando aquilo ia durar. até quando aquela presença continuaria ali? até quando o fio da vida continuaria intacto?

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Paleta de cores

Veja bem Nina, 

Eu andava em farrapos. Farrapos.
Eu não me conhecia, eu não me via como alguém externo a mim. Nina, eu vivia tão dentro de mim, mas tão dentro, que não me enxergava como um ser humano que merecia felicidade. compaixão. carinho. respeito. paz. 
amor.
Nina, eu me maltratei tanto, eu deixei que me maltratassem tanto e eu não via a gravidade disso. 
E eu choro. Eu grito por dentro quando me dou conta disso, porque eu queria voltar atrás e me tratar como alguém digna de todas as coisas boas do mundo, mas não posso. Eu não posso, porque ficou pra trás, porque ficou na lembrança. Daquelas que a gente não lembra direito, só uns flashs meio desorganizados e confusos. 
Flashs que doem o peito quando aparecem. De tão ruins. 
Mas o hoje, pequena, é essa pintura, sendo feita a óleo, em constante mudança, o hoje é essa mistura de arte barroca com a arte não-significada-de-Frida-Kahlo.  Hoje eu me pinto, bordo, costuro, coloro. Hoje, enfim, eu me amo e vejo toda essa mistura de cores que sou. Digna da mais alta apreciação.
Vezenquando eu até me vejo como alguém não pertencente a mim. Alguém que talvez eu possa esbarrar na rua e pensar: que incrível ela deve ser! E sou. Sou dentro de minha particularidade. 

Eu espero que você se veja assim também, eu espero que enxergues em ti tudo aquilo que enxergo em mim e que também enxergo em ti. Eu espero, Nina, que você ao acordar todo dia se sinta digna de amor, porque o és. Cuida bem de ti. 
Daqui, eu te cuido como posso.

Ainda com saudades,

J.

Ir-remediável

Seu corpo desnudo não me trazia vergonha, nem fazia meus olhos desviarem, pelo contrário, procuravam ansiosamente por cada centímetro de pele, de órgãos, de pêlos, de marcas.

meus olhos já não mais fechavam atrás de outra imagem que causasse conforto. porque meu corpo aconchegava na ternura e calor que emanava desse outro corpo.

porque, talvez, naquele momento, o sentido que eu tanto procurava, acabava de encontrar. mesmo que esse encontro não durasse mais que alguns segundos.

porque estar ali era não estar em mim.
e não estar em mim já era muita coisa.

percorrer os dedos pela boca morna, queixo, pescoço, seios, barriga, pernas e não entender como, meu deus, como? o externo se perdia, tanto, tanto, tanto, pelo decorrer dos dias e das semanas.

e às vezes se encontrava
e se perdia
e se achava
e de repente
esvanecia.

e depois se encontrava naquele corpo. quantas vezes fosse preciso.
porque estar ali era bom.

quinta-feira, 6 de junho de 2019

E eu te amei com toda a força que eu podia. Quis te ter tão fortemente que meus órgãos doíam. Te via dormir e sentia como se nada mais pudesse me abalar, porque estar contigo era assim. Contudo, eu quis mais ainda que você fosse real. Que todas aquelas coisas que eu pensava e sentia por você fossem mais do que apenas projeções da minha cabeça. Queria, desejava e ansiava que todo aquele amor fosse real. Como dizia Caio, em um de seus contos: "eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você ou apenas aquilo que eu queria ver em você, eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e se era assim, até quando eu conseguiria ver em você todas essas coisas que me fascinavam e que no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas". E me doía saber que eu amava alguém que nunca existiu. Me dói saber que sinto saudades de alguém que só existiu dentro da minha mente.

sábado, 13 de abril de 2019

março de 2019

Há alguma coisa. alguma. coisa.
Porque eu precisei de ti, sim, nos dias que eu acordava de manhã e me sentia vazia, como uma xícara de café com leite morno, como se tivesse faltando alguma coisa.
Porque eu precisei de ti, sim, ao meio dia, pra me perguntar se eu tinha comido alguma coisa e se essa coisa era suficiente pra me sustentar durante o dia. E eu precisei de ti durante a tarde, pra saber como eu tava, pra saber dos meus medos, dos meus planos. Eu precisei de ti, especialmente, a noite, quando os fantasmas me assombravam. Precisei de ti pra saber como tinha sido meu dia, pra ouvir que você me queria por perto e que tinha feito a janta pensando em mim, pensando nos nutrientes que meu corpo precisava.
E eu precisei de ti todos os dias, da sua presença, da sua voz, do seu corpo. Precisei de ti pra tomar café comigo (e vinho). Pra ouvir música e pra me ouvir lendo pra você. Eu precisei de ti no mais profundo, no mais fundo, no mais escuro do profundo, do profano. Mas você não tava lá e eu não te culpo por isso. Não me culpo também. A vida só acontece. E eu sinto sua falta. Não porque eu tenha chegado a te amar nem nada, mas amei sua presença, seus feitos, amei sua passagem pela minha vida, como num conto de um livro que eu gostei muito de ter lido, um conto que eu releria se eu pudesse, mas não posso, porque não quero.

sábado, 9 de março de 2019

8M

Eram 06h da manhã, ainda escuro, um calor grudento de um quase-outono desagradável. 
Veio andando pela rua, meio tonta, com um sabor estranho na boca. Talvez fossem as lágrimas que nunca chegaram a rolar pelo rosto, pensou ela. Dia 08 de março. oito. 
Já tinha recebido os parabéns. Parabéns por ser mulher, parabéns, linda, parabéns, mas... Aquela vagabunda tem que deixar se revistar pelos policiais homens, pra quê ser mulher policial? Se quando é pra macho passar a mão elas gostam. Parabéns, bonita. Parabéns? Ela não tinha entendido. 
Continuou andando, lembrando que depois do parabéns, uma mulher sofreu um estupro há 4 km de onde ela estava. Parabéns, por ser assim tão feminina, por ser assim tão... mulher. 

Dormiu. 13h da tarde. Acordou com um peso. Peso de que, meu deus? 
Passou o batom vermelho, saiu de casa. Abraçou e beijou a barba de quem se gosta. Abraçou e sentiu o volume por meio das calças, desejo, vontade, delírio. Um cuidado e carinho masculino diferente do que se tinha quando andava sozinha às 06h.

18h. Um cheiro de cerveja. Cheiro de mulher. Vozes de mulher. Parabéns, moça forte, guerreira. Parabéns. 
Agora entendia. Mas o que havia feito pra receber tantas felicitações?
Mulheres seguravam seu braço. Mulheres sorriam pra ela. "Parabéns por resistir". 
Sentiu vontade de chorar, porque resistia todo dia, em todo lugar. Parabéns por ser forte? Por conseguir aguentar sem querer morrer? Merecia.

21h. Andava sozinha novamente. Cheiro forte de cerveja e cigarro. No silêncio da rua, ao longe, ouvia "O feminismo é a revolução, revolução, revolução..." Sorria. Parabéns, disse pra si mesma.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Cicatriz meretriz

O roxo do meu braço agora parecia um amarelo queimado com verde musgo. Uma constelação que antes roxa, ia se esvanecendo, como se nunca tivesse existido. Os cortes em meus dedos criavam uma casca dura, onde antes pulsava uma ferida aberta. Uma casca vermelha-escura de um sangue que antes brilhava claro e escorria em meus braços em direção a pia do banheiro. O mundo agora parava, estático, silencioso, onde antes girava girava girava sem parar e me fazia querer vomitar. As dores já foram embora, as cicatrizes estão indo. É isso que significa a vida? É isso que significa o amor?
Ele existe, e dói quando precisa doer, e some quando precisa sumir?

E dá paz quando precisa dar, mesmo que longe.