sexta-feira, 23 de março de 2012

Projeções idealistas

Andava apressadamente pelos corredores tumultuados daquele enorme saguão, entrepassando nos espaços pequenos das pessoas, com sua mochila verde-bosta nas costas. Conseguiu alcançar a plataforma antes que o trem saísse, e como sempre, demorou mais de 10 minutos pra escolher em qual assento estofado sentaria. Como era de costume, de tanto procurar, acabou sentando no último, onde sabia que ninguém sentaria com ele. 
Esticou suas pernas e batucava impaciente no vidro. Seus pensamentos estavam na mesma aceleração do trem, rápidos demais, aleatórios e confusos. 
Projetou uma imagem qualquer a sua frente, e começou a indagar, soltando seus males fantasmagóricos que tanto guardou dentro de si desde que aquelas blasfêmias, contra o seu ser estagnado, tivessem o afetado.
- Você me amou. Eu sei. Me amou quando eu já não podia mais. Me amou quando aquele amor todo não cabia em mim. Quando meu peito parecia pequeno demais pra aguentar todo aquele sentimento. Você me amou toda vez que eu chorava, toda vez que eu sorria, toda vez, quando meu olhar parava em você, eu via que você me amava. Me amou quando eu não precisava, quando eu não queria, e quando tudo o que eu queria era ter você grudada em mim. 
Céus, você me prendeu tanto que eu não imaginava minha vida sem a sua presença do meu lado. Eu achei que construiríamos nossa pequena casa no meio daquele nada que sempre inventávamos. Achei que meu corpo nunca passaria frio no inverno, porque seu corpo estaria lá, grudado no meu, me passando segurança e conforto. Achei que sempre riria das suas caretas, dos seus sorrisos idiotas toda vez que eu fazia algo desastrado. 
Querida, eu imaginei tanta coisa, planejei tanta coisa. Projetei nós, pra sempre. Nos poucos sonhos que eu tinha, você estava em todos eles. Eu te amei com um amor que não cabia em mim. Te amei de uma forma que eu nunca imaginei amar alguém. Mas, sabe?! - Indagou ele, prendendo as lágrimas de uma pessoa imaginária do assento a sua frente. - Eu acho que me enganei. Acho que minhas projeções estavam erradas. Ou não. Ou talvez seja só questão de tempo. Mas enquanto isso, vou me construir no meio do nada, na minha casinha de madeira mal-feita. Esperando que, talvez, num dia de inverno, enquanto esteja nevando, você bata na minha porta, com aquele bolo de chocolate nas mãos e o mesmo sorriso apaixonante. 

segunda-feira, 12 de março de 2012

Lembrança-doce

Arthur lembrava do passado com bastante frequência. Lembrava de seus joelhos sempre ralados, da estrada de barro, das horas extensas - mas que pareciam correr com pressa - que passava soltando pipa na rua com seus amigos. Lembrava da comida da vovó, o arroz branquinho, o feijão suculento, lembrava da sua voz contando histórias de lobisomen. Lembrava do cheiro do seu pai, cheiro de homem com experiência - costumava dizer. Lembrava, especialmente, dos raros dias em que iam na cidade. Comprava balões, novos chapéus, sapatos pretos, e comia tanto doce que mal conseguia andar até em casa.
Havia, também, os dias em que o circo chegava na cidade. Iam sempre. Andavam naqueles projétis de foguete, roda gigante, palhaços, maçã-doce, algodão-doce, leões, plateia, multidão. Lembrava de tudo isso com um sorriso na cara.

Tempo bom, pensava. Sapateando no assoalho da sua casa solitária, esperando que as horas passassem. Talvez elas trouxessem algo tão doce como o passado que costumara ter.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Hoje e todos os dias

Hoje eu acordei com uma vontade enorme de te ver dormindo. Com aquele ar recém-chegado do calor do sol. Hoje eu acordei com vontade de alisar seu rosto no silêncio do quarto, passar as mãos sobre seus braços macios e quentes, tirar o fio de cabelo do seu rosto, te ver respirar pesadamente. Hoje eu acordei com vontade de te amar pela manhã, deixando um recadinho no alto da sua cama, pra você acordar e sorrir ao ler. Sorrir por mim. Por nós.