Esticou suas pernas e batucava impaciente no vidro. Seus pensamentos estavam na mesma aceleração do trem, rápidos demais, aleatórios e confusos.
Projetou uma imagem qualquer a sua frente, e começou a indagar, soltando seus males fantasmagóricos que tanto guardou dentro de si desde que aquelas blasfêmias, contra o seu ser estagnado, tivessem o afetado.
- Você me amou. Eu sei. Me amou quando eu já não podia mais. Me amou quando aquele amor todo não cabia em mim. Quando meu peito parecia pequeno demais pra aguentar todo aquele sentimento. Você me amou toda vez que eu chorava, toda vez que eu sorria, toda vez, quando meu olhar parava em você, eu via que você me amava. Me amou quando eu não precisava, quando eu não queria, e quando tudo o que eu queria era ter você grudada em mim.
Céus, você me prendeu tanto que eu não imaginava minha vida sem a sua presença do meu lado. Eu achei que construiríamos nossa pequena casa no meio daquele nada que sempre inventávamos. Achei que meu corpo nunca passaria frio no inverno, porque seu corpo estaria lá, grudado no meu, me passando segurança e conforto. Achei que sempre riria das suas caretas, dos seus sorrisos idiotas toda vez que eu fazia algo desastrado.
Querida, eu imaginei tanta coisa, planejei tanta coisa. Projetei nós, pra sempre. Nos poucos sonhos que eu tinha, você estava em todos eles. Eu te amei com um amor que não cabia em mim. Te amei de uma forma que eu nunca imaginei amar alguém. Mas, sabe?! - Indagou ele, prendendo as lágrimas de uma pessoa imaginária do assento a sua frente. - Eu acho que me enganei. Acho que minhas projeções estavam erradas. Ou não. Ou talvez seja só questão de tempo. Mas enquanto isso, vou me construir no meio do nada, na minha casinha de madeira mal-feita. Esperando que, talvez, num dia de inverno, enquanto esteja nevando, você bata na minha porta, com aquele bolo de chocolate nas mãos e o mesmo sorriso apaixonante.