Eu, Cristiane, drogada desde os 15, não consigo me levantar. Ontem andei pelo cais de Cabo Frio, com as roupas meio amassadas, meio rasgadas, trocando os pés e a mente. Dizia a mim mesma que passaria, que passará - sabendo que não.
Não importa, caro ouvinte - Ouvinte, porque leio essas anotações que escrevi, em voz alta. Não importa se não passará. Quando vives um tempo com algum sentimento dentro de você, ele começa a fazer parte de quem és e de repente nem nota que está lá e que machuca vez em sempre. But it's ok, i adapted anyway.
E aí eu deito na madeira suja, todo dia, e olho o sol subir no horizonte, com a famigerada e falha promessa de fazer o dia de hoje ser melhor do que o de ontem. Mas nunca é, meu caro, nunca é. Todo dia é uma sucessão de novos semblantes, novos cigarros, novas alucinações, novas esperanças, que logo se vão, junto com o pôr-do-mentiroso-sol.
Mas hão de saber: toda meia-noite sento na calçada vermelha da Avenida Sexta e escuto Fernando, saxofonista, tocar dentro do bar. E durante aquela uma hora tudo faz sentido.