domingo, 7 de fevereiro de 2016

Falhas

Eu, Cristiane, drogada desde os 15, não consigo me levantar. Ontem andei pelo cais de Cabo Frio, com as roupas meio amassadas, meio rasgadas, trocando os pés e a mente. Dizia a mim mesma que passaria, que passará - sabendo que não. 
Não importa, caro ouvinte - Ouvinte, porque leio essas anotações que escrevi, em voz alta.  Não importa se não passará. Quando vives um tempo com algum sentimento dentro de você, ele começa a fazer parte de quem és e de repente nem nota que está lá e que machuca vez em sempre. But it's ok, i adapted anyway. 

E aí eu deito na madeira suja, todo dia, e olho o sol subir no horizonte, com a famigerada e falha promessa de fazer o dia de hoje ser melhor do que o de ontem. Mas nunca é, meu caro, nunca é. Todo dia é uma sucessão de novos semblantes, novos cigarros, novas alucinações, novas esperanças, que logo se vão, junto com o pôr-do-mentiroso-sol. 

Mas hão de saber: toda meia-noite sento na calçada vermelha da Avenida Sexta e escuto Fernando, saxofonista, tocar dentro do bar. E durante aquela uma hora tudo faz sentido. 
A fumaça sobe
O álcool corre nas veias
O jazz toca nos fundos
E você continua me doendo.
Me ardendo
Me fodendo. 

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Nina, de novo

Havia essa mesa. Havia esse par de olhos vagos, longínquos.

Meu café esfriou há 10 minutos e eu continuo na mesma posição. Encarando-a.

E ela sequer nota que estou aqui. Seu corpo presente, mas a mente longe, em outra dimensão, talvez com outra pessoa.
Mexo o liquido frio e viscoso com os dedos, suspiro fundo, quero chamá-la pra perto, quero dizer-lhe tantas coisas – que muito provavelmente devam ficar em silêncio.

- Nina...

(...)

- Nina, eu não sei onde fui parar. Não sei onde fui parar porque te perdi. E eu te sou, tu me és. Não me encontro longe de ti. Não sei quem sou longe de ti.

(...)

- E ás vezes, muitas vezes, enquanto tento te encontrar, vejo você correndo, fugindo. E quase sempre vejo minha sombra sendo a tua e me perco mais ainda.

Ela piscou, os olhos penetrando os meus, impacientes.

- O que estou querendo dizer é que... Sinto sua falta. Sinto sua falta nos cafés, nas músicas que tocam na rádio, nos livros que leio sozinha, no vento que sopra todo fim de tarde, na chuva que cai de madrugada. Sinto sua falta quando durmo e quando acordo, mesmo que você esteja do meu lado. 
Sinto sua falta nas garrafas vazias de vinho, nos filmes de drama que assisto enquanto estás sentada a janela. Eu sinto sua falta.

Ela bebeu seu café – também frio – e deu um meio sorriso. Como se soubesse o que eu estava pensando.

- E eu já não suporto sentir sua falta. Não suporto estar aqui do seu lado, longe de ti. Não suporto não te conhecer mais.

Ela sorriu. Olhou pela janela e tomou o restante do seu café.


Levantei, deixando apenas dinheiro e um livro em cima da mesa. O frio que fazia fora daquele lugar me confortou. Fez-me sorrir. Andei com a pressa de quem foge de algo terrivelmente assustador. E quando olhei pra trás, ela ainda sorria, como se tivesse finalmente se encontrado. Nunca mais a vi.