quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Nina, de novo

Havia essa mesa. Havia esse par de olhos vagos, longínquos.

Meu café esfriou há 10 minutos e eu continuo na mesma posição. Encarando-a.

E ela sequer nota que estou aqui. Seu corpo presente, mas a mente longe, em outra dimensão, talvez com outra pessoa.
Mexo o liquido frio e viscoso com os dedos, suspiro fundo, quero chamá-la pra perto, quero dizer-lhe tantas coisas – que muito provavelmente devam ficar em silêncio.

- Nina...

(...)

- Nina, eu não sei onde fui parar. Não sei onde fui parar porque te perdi. E eu te sou, tu me és. Não me encontro longe de ti. Não sei quem sou longe de ti.

(...)

- E ás vezes, muitas vezes, enquanto tento te encontrar, vejo você correndo, fugindo. E quase sempre vejo minha sombra sendo a tua e me perco mais ainda.

Ela piscou, os olhos penetrando os meus, impacientes.

- O que estou querendo dizer é que... Sinto sua falta. Sinto sua falta nos cafés, nas músicas que tocam na rádio, nos livros que leio sozinha, no vento que sopra todo fim de tarde, na chuva que cai de madrugada. Sinto sua falta quando durmo e quando acordo, mesmo que você esteja do meu lado. 
Sinto sua falta nas garrafas vazias de vinho, nos filmes de drama que assisto enquanto estás sentada a janela. Eu sinto sua falta.

Ela bebeu seu café – também frio – e deu um meio sorriso. Como se soubesse o que eu estava pensando.

- E eu já não suporto sentir sua falta. Não suporto estar aqui do seu lado, longe de ti. Não suporto não te conhecer mais.

Ela sorriu. Olhou pela janela e tomou o restante do seu café.


Levantei, deixando apenas dinheiro e um livro em cima da mesa. O frio que fazia fora daquele lugar me confortou. Fez-me sorrir. Andei com a pressa de quem foge de algo terrivelmente assustador. E quando olhei pra trás, ela ainda sorria, como se tivesse finalmente se encontrado. Nunca mais a vi.

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