Havia essa mesa. Havia esse par de olhos vagos, longínquos.
Meu café esfriou há 10 minutos e eu continuo na mesma
posição. Encarando-a.
E ela sequer nota que estou aqui. Seu corpo presente, mas a
mente longe, em outra dimensão, talvez com outra pessoa.
Mexo o liquido frio e viscoso com os dedos, suspiro fundo, quero
chamá-la pra perto, quero dizer-lhe tantas coisas – que muito provavelmente
devam ficar em silêncio.
- Nina...
(...)
- Nina, eu não sei onde fui parar. Não sei onde fui parar
porque te perdi. E eu te sou, tu me és. Não me encontro longe de ti. Não sei
quem sou longe de ti.
(...)
- E ás vezes, muitas vezes, enquanto tento te encontrar,
vejo você correndo, fugindo. E quase sempre vejo minha sombra sendo a tua e me
perco mais ainda.
Ela piscou, os olhos penetrando os meus, impacientes.
- O que estou querendo dizer é que... Sinto sua falta. Sinto
sua falta nos cafés, nas músicas que tocam na rádio, nos livros que leio
sozinha, no vento que sopra todo fim de tarde, na chuva que cai de madrugada.
Sinto sua falta quando durmo e quando acordo, mesmo que você esteja do meu
lado.
Sinto sua falta nas garrafas vazias de vinho, nos filmes de drama que
assisto enquanto estás sentada a janela. Eu sinto sua falta.
Ela bebeu seu café – também frio – e deu um meio sorriso.
Como se soubesse o que eu estava pensando.
- E eu já não suporto sentir sua falta. Não suporto estar
aqui do seu lado, longe de ti. Não suporto não te conhecer mais.
Ela sorriu. Olhou pela janela e tomou o restante do seu
café.
Levantei, deixando apenas dinheiro e um livro em cima da
mesa. O frio que fazia fora daquele lugar me confortou. Fez-me sorrir. Andei
com a pressa de quem foge de algo terrivelmente assustador. E quando olhei pra
trás, ela ainda sorria, como se tivesse finalmente se encontrado. Nunca mais a
vi.
Nenhum comentário:
Postar um comentário