Teu silêncio me é afável, Elis, ao mesmo tempo que me corrói feito ácido.
Ontem acordei com os pés arrastados, escutando o zumbindo que tua ausência faz aos meus ouvidos. Joguei o café no copo e nem lembro de tê-lo tomado.
Todos os dias chove lá fora, chove aqui dentro e me permito sentir as gotas - de chuva ou não - inundar minha face.
A maré alta assola meu terreno todos os dias, o vento que violenta o mar, violenta árvores, violenta minha alma e vai embora (porém trata sempre de voltar).
Elis, tu que tanto foi dona de si, se perdeu no caminho. Agora és dona de quem? Senão do teu próprio silêncio.
Imploro-te, quase sempre, em pensamento. Volte, fique, me segure, me apoie, me cerque. Que nada, querida. O amor não se segura, não tem gravidade.
Fico eu aqui, todos os dias, indagando perguntas sem respostas.
Será o que sou? Será o que faço? Sou eu quem choro ou é o mar lá fora? Amar tem remédio? Desamar tem limite?
Não importa.
Preciso ouvir o silêncio para apreciar o barulho.