As pernas. Sempre as pernas. Jogadas pelo sofá. Nuas. Seminuas. Com meias três-quartos. As pernas sempre a minha vista, sempre acompanhadas de duas mãos com um livro entre elas, ou com um café, em dias ruins, vinho branco.
No primeiro dia em que as vi, estavam acompanhadas de uma saia, por debaixo de uma mesa num café perto da praia. Encarei-as por muito tempo antes de encontrar o par de olhos verdes, também me encarando. Depois veio o sorriso, mas não um qualquer. Um sorriso que dizia tudo que não poderia ser dito com palavras. Naquele mesmo instante, eu comprara um café e sentara a sua frente. Eu sorria também, porque olhar para aquela mistura de sorriso com olhos verdes, fazia minha mandíbula abrir, involuntariamente, quase como o meu miocárdio.
E passamos cinco terços de hora em silêncio. Eu bebia meu café, ela abria o livro, eu olhava suas pernas, ela sorria, eu sorria, eu acendia um cigarro, ela pedia mais um café, eu olhava suas pernas novamente.
Depois disso, vivíamos juntas.
Eu, ela, suas pernas, o verde de seus olhos, os livros e os vinhos. Não havia muitas palavras, mas eu quase sempre queria dizer o que pensava. Quase. Porque se disse uma vez que amava quem ela era, fora muito.
Mas queria dizer que a amava. Que a amei desde o primeiro minuto que olhei seu corpo, que senti seu cheiro, que ouvi seu sorriso. Queria dizer que seu signo combinava com o meu, que no meu, câncer estava em marte e que eu havia feito o mapa astral dela, e ela também tinha câncer em marte! Ou então capricórnio ou touro, mas que combinava com o meu. Disso eu lembro, combinava com o meu. Os planetas diziam que devíamos ficar juntas! E mesmo que eles não dissessem, claro que devíamos.
Eu também queria dizer que a meia preta fica mais bonita que a marrom, porque o tom da pele branca dá mais contraste. Queria lhe dizer que quando dorme, ela sempre sonha com algo ruim, e eu canto para que durma de novo, embora eu ache que ela nunca tenha mesmo me ouvido cantar. Dizer também que adoro a salada de frutas que faz toda manhã, porque eu teria preguiça de fazer. Dizer que amo o jeito que ela ri de vídeos de gatos, ou o jeito que chora quando acha algo, simplesmente, bonito. Dizer que amo a ver dançando. O jeito que balança aquelas pernas, que mexe a cintura e faz uma cara de louca segurando o controle remoto como microfone. Que amo o jeito que ela segura o livro quando lê, e faz caras e bocas, como se estivesse dentro do livro e dele fizesse parte.
Dizer apenas que desde o dia que a conheci, a observo como quem observa o pássaros pela janela. Como as criaturas raras, intocáveis e livres que são. E não há nada que eu gostaria mais de fazer do que olhá-la todos os dias e me sentir grata por fazer parte da existência de quem ela é.
Mas só penso. Só penso porque tentar explicar o quanto amo todos os detalhes de todas as suas ações, seria trair meus sentimentos, porque sempre fica algo pra trás, algo que não se põe em palavras. Por isso me limito a sorrir, e pelo jeito que ela me sorri de volta, deve saber.
quinta-feira, 24 de dezembro de 2015
quinta-feira, 10 de setembro de 2015
De um roubo de bicicleta à insistência de culpar toda vítima
Hoje aconteceu um episódio estranho que, infelizmente, me
remeteu a outro assunto e eu precisei escrever esse texto.
Hoje, como todos os outros dias, acordei para me exercitar. Corro
por 15 minutos e ando de bicicleta, deixando-a no estacionamento de um mercado
próximo, com cadeado. Mas diferente dos outros dias, quando cheguei no
estacionamento, ela não estava mais lá. Me informei com um senhor idoso que
mexia em sua própria bicicleta e ele me relatou que ela também não estava ali
quando ele havia chegado. Presumi então, que a situação toda ocorreu em cinco
minutos, que o ladrão provavelmente me observou chegar e me observou sair.
Você deve estar se perguntando: por que ela quis escrever
sobre esse assunto banal? Explico.
Contando para pessoas próximas de mim o que tinha
acontecido, a maioria me respondeu: “poxa, Jady, que pena”, ou “esse bairro
anda violento, né?” e até mesmo “vou te ajudar a comprar outra, não se preocupa,
o bom é que não aconteceu nada contigo”, mas infelizmente, também ouvi “vacilou,
né?”, “por que tu levou tua bicicleta pra lá? Não tinha nada que ter levado”, “Ah!
Quem manda andar em lugar que não deve”.
Roubaram-me apenas uma bicicleta. Porém eu poderia ter sido
morta, estuprada, agredida e ainda assim existiriam pessoas que teriam me dito
que a culpa era minha.
Senhores, senhoras, NÃO, a culpa não é minha, a culpa não é
da mulher que foi estuprada, a culpa não é da pessoa que foi assassinada. A
culpa foi de quem fez. Por que insistem em culpar a vitima? É mais fácil? Eu
tenho meu direito de andar de bicicleta aonde eu quiser, de vestir a roupa que
eu quiser, de agir do jeito que eu quiser e ainda assim a culpa não deve cair
sobre minhas costas.
De um roubo de bicicleta à insistência de culpar toda
vitima: parem. Apenas.
sexta-feira, 10 de julho de 2015
O amanhã
Ontem eu dormi chorando pelo que eu era. Chorando por cada ínfima parte do que fui e que agora, não consigo mais ser. Chorando por coisas das quais eu tanto me orgulhava e que agora sumiram, feito a sombra sorrateira da lua, que de fininho sai quando não notas.
Chorei pelas cicatrizes de 40 anos que, na verdade, nem cicatrizes são. Porque ainda estão abertas, pulsando sangue e veias e artérias.
Derramei lágrimas no travesseiro, principalmente, por tudo que almejei ser e não consegui alcançar.
Chorei, céus, porque tem dias que a gente só vê um buraco de fracassos no coração e acha que chorando, faz o buraco ficar menor.
Mas vê, não há problema.
Amanhã há de ser outro dia. Amanhã, talvez, eu durma sorrindo por tudo que me tornei. Que em dias de bonança, são como o arco-íris - trazendo essa pitada de esperança. Posso ser melhor? Posso colocar band-aid no que custa a sarar, mas que enfim sarará?
Posso.
Posso.
Amanhã há de ser outro dia.
Chorei pelas cicatrizes de 40 anos que, na verdade, nem cicatrizes são. Porque ainda estão abertas, pulsando sangue e veias e artérias.
Derramei lágrimas no travesseiro, principalmente, por tudo que almejei ser e não consegui alcançar.
Chorei, céus, porque tem dias que a gente só vê um buraco de fracassos no coração e acha que chorando, faz o buraco ficar menor.
Mas vê, não há problema.
Amanhã há de ser outro dia. Amanhã, talvez, eu durma sorrindo por tudo que me tornei. Que em dias de bonança, são como o arco-íris - trazendo essa pitada de esperança. Posso ser melhor? Posso colocar band-aid no que custa a sarar, mas que enfim sarará?
Posso.
Posso.
Amanhã há de ser outro dia.
sexta-feira, 5 de junho de 2015
1972
Teu silêncio me é afável, Elis, ao mesmo tempo que me corrói feito ácido.
Ontem acordei com os pés arrastados, escutando o zumbindo que tua ausência faz aos meus ouvidos. Joguei o café no copo e nem lembro de tê-lo tomado.
Todos os dias chove lá fora, chove aqui dentro e me permito sentir as gotas - de chuva ou não - inundar minha face.
A maré alta assola meu terreno todos os dias, o vento que violenta o mar, violenta árvores, violenta minha alma e vai embora (porém trata sempre de voltar).
Elis, tu que tanto foi dona de si, se perdeu no caminho. Agora és dona de quem? Senão do teu próprio silêncio.
Imploro-te, quase sempre, em pensamento. Volte, fique, me segure, me apoie, me cerque. Que nada, querida. O amor não se segura, não tem gravidade.
Fico eu aqui, todos os dias, indagando perguntas sem respostas.
Será o que sou? Será o que faço? Sou eu quem choro ou é o mar lá fora? Amar tem remédio? Desamar tem limite?
Não importa.
Preciso ouvir o silêncio para apreciar o barulho.
Ontem acordei com os pés arrastados, escutando o zumbindo que tua ausência faz aos meus ouvidos. Joguei o café no copo e nem lembro de tê-lo tomado.
Todos os dias chove lá fora, chove aqui dentro e me permito sentir as gotas - de chuva ou não - inundar minha face.
A maré alta assola meu terreno todos os dias, o vento que violenta o mar, violenta árvores, violenta minha alma e vai embora (porém trata sempre de voltar).
Elis, tu que tanto foi dona de si, se perdeu no caminho. Agora és dona de quem? Senão do teu próprio silêncio.
Imploro-te, quase sempre, em pensamento. Volte, fique, me segure, me apoie, me cerque. Que nada, querida. O amor não se segura, não tem gravidade.
Fico eu aqui, todos os dias, indagando perguntas sem respostas.
Será o que sou? Será o que faço? Sou eu quem choro ou é o mar lá fora? Amar tem remédio? Desamar tem limite?
Não importa.
Preciso ouvir o silêncio para apreciar o barulho.
domingo, 8 de fevereiro de 2015
Lígia
Lígia, tô indo. Talvez eu me arrependa, mas preciso ir pra descobrir quem eu sou. Eu te amei, saboreei cada pedaço dos momentos que passamos juntas. Amei quando percebi que a música que tocava perto de ti se tornava uma espécie de ''Fitzgerald'', como o vinho que você me servia tinha outro gosto, um gosto só teu. Amei teus quadros abstratos, teus livros de filosofia, amei tuas expressões faciais, teus dotes culinários, amei tua ironia, tua força, teu espírito. Lígia, eu amei até teus medos, amei teu sexo, tua fúria, amei teus lábios nos meus, teus lábios nas minhas costelas, teus lábios nas minhas coxas. Amei nossas fugas da madrugada para adentrar no mar gelado. Me encantei, principalmente, quando vi que você tinha construído um papel fundamental na minha vida e construído sem querer e nem perceber. Você foi como uma maresia num dia quente. Mas agora eu preciso ir, porque antes de você chegar eu já precisava. Agora necessito menos (sofridamente). Tu fez tudo ser mais leve.
Espero voltar. Espero descobrir logo e voltar inteira pra poder te dar mais do que queiras.
Amei e amo e amarei.
Espero voltar. Espero descobrir logo e voltar inteira pra poder te dar mais do que queiras.
Amei e amo e amarei.
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015
Ela fechou os olhos, suspirou duas vezes. Ainda que com os olhos fechados, conseguia ver a tonalidade azul do céu e sentia o calor do sol esquentando suas finas pálpebras.
O dia estava frio e o vento que soprava fazia sua pele arrepiar por debaixo dos casacos. A grama verde fazia cócegas na palma de sua mão e a música do Bon Iver tocava a todo volume em seus ouvidos.
Era um quadro perfeito de aconchego e paz.
E tudo o que ela conseguia pensar, era nele.
Ele morrera e tudo o que ficara dele eram os livros, as palavras tão ricas e profundas.
Um gênio, dizia ela. Minha alma gêmea, suspirava ela. Um amigo que nunca cheguei a ter, chorava ela.
Ele se fora um ano depois que ela nasceu, mas isso não a impediu de o conhecer.
Lera todos os livros dele, todas as cartas e o conhecia como se fossem amigos desde o inicio dos tempos.
Nesses dias, de nostalgia e saudades, ela desejava com todo seu ser que ele estivesse ao lado dela na grama. E que os dois discutissem o sentido da vida.
Cheia de saudade de uma coisa que nunca chegou a ser. Mas que se fosse, com certeza, seria a coisa mais terna que já havia existido no mundo.
Dedicado à Caio Fernando Abreu
quarta-feira, 21 de janeiro de 2015
Carta de janeiro
Nina,
Peguei o metro. A cidade passa rápido. As arvores passam rápido. Tudo corre. Só eu que fico parada. Vejo tudo passar voando, como se fugissem de mim.
Não sei, talvez andem fugindo.
Nina! Será que fogem?
Ando delirando.
Suspiros.
Recebeu a carta que te mandei mês passado? Te vi em meus sonhos e ai de manhã abri o jornal, todo amassado porque o carteiro não gosta de mim, e você estava lá. Sorrindo. Como se fosse propaganda de creme dental. Como se soubesse que eu ia te ver e sorrisse com desdém, só pra me mostrar que, nem que eu tente de todas as formas fazer o contrário, você vai continuar sendo o primeiro pensamento da manhã.
Achei proposital. Então to te mandando essa outra carta.
Depois que peguei o jornal, joguei no lixo, não queria correr o risco de olhar pro seu sorriso de novo, não daquele jeito.
Troquei de calça e caminhei sem nem saber pra onde. Tentei me convencer de que você já tinha ido embora da minha cabeça. Tinha nada.
Eu continuava mentindo pra mim mesma.
Você me assombrava como Freddy Krueger, só que ainda pior.
Nina, o começo foi bom. Aquela saudade de quem tem esperanças. Aquela saudade que bate no peito, rebate, quica e volta com tudo. Trazendo aquela adrenalina dos saltos.
Aí depois para, surge uma força e ela fica em repouso, em movimento retilíneo uniforme, porém não vai embora, fica ali, seca, oca, que incomoda e não liga de incomodar.
Fui chutando as pedras do caminho e comprei uma passagem pro primeiro metro do dia.
Analisei as coisas fugindo de mim e resolvi que seria uma boa escrever isto.
Recebe essa carta e junta com todas as outras que eu já te mandei, você nem abre, provavelmente. Se abre, fica rindo com esses dentes cheios de colgate.
Saudades. Saudades. Saudades e saudades e saudades ocas e cheias de mágoas.
Do seu outro eu.
Peguei o metro. A cidade passa rápido. As arvores passam rápido. Tudo corre. Só eu que fico parada. Vejo tudo passar voando, como se fugissem de mim.
Não sei, talvez andem fugindo.
Nina! Será que fogem?
Ando delirando.
Suspiros.
Recebeu a carta que te mandei mês passado? Te vi em meus sonhos e ai de manhã abri o jornal, todo amassado porque o carteiro não gosta de mim, e você estava lá. Sorrindo. Como se fosse propaganda de creme dental. Como se soubesse que eu ia te ver e sorrisse com desdém, só pra me mostrar que, nem que eu tente de todas as formas fazer o contrário, você vai continuar sendo o primeiro pensamento da manhã.
Achei proposital. Então to te mandando essa outra carta.
Depois que peguei o jornal, joguei no lixo, não queria correr o risco de olhar pro seu sorriso de novo, não daquele jeito.
Troquei de calça e caminhei sem nem saber pra onde. Tentei me convencer de que você já tinha ido embora da minha cabeça. Tinha nada.
Eu continuava mentindo pra mim mesma.
Você me assombrava como Freddy Krueger, só que ainda pior.
Nina, o começo foi bom. Aquela saudade de quem tem esperanças. Aquela saudade que bate no peito, rebate, quica e volta com tudo. Trazendo aquela adrenalina dos saltos.
Aí depois para, surge uma força e ela fica em repouso, em movimento retilíneo uniforme, porém não vai embora, fica ali, seca, oca, que incomoda e não liga de incomodar.
Fui chutando as pedras do caminho e comprei uma passagem pro primeiro metro do dia.
Analisei as coisas fugindo de mim e resolvi que seria uma boa escrever isto.
Recebe essa carta e junta com todas as outras que eu já te mandei, você nem abre, provavelmente. Se abre, fica rindo com esses dentes cheios de colgate.
Saudades. Saudades. Saudades e saudades e saudades ocas e cheias de mágoas.
Do seu outro eu.
sábado, 3 de janeiro de 2015
Procura-se
Num rompante, Lúcia, menina magrela entra correndo na sala, exasperada e começa a gaguejar:
- Você... Não... Sabe...
- Lúcia, respire. - Não dei muita importância, queria mais era terminar o livro que estava lendo, Sherlock estava explicando a solução de um crime e eu não queria me distrair.
- Nina, é importante. Tire os olhos desse livro por um instante, por favor? - Fechei o livro, contrariada.
- Nunca é importante, mas fale.
- O Zé estava conversando com o Chico.
- Uhum...
- E ele disse algumas coisas bem interessantes.
- Uhum...
- Pode, pelo menos, mostrar interesse?
- Você divaga muito, menina. Fale logo.
- Tudo bem...
- Anda!
- Ai, Nina, você está estressada demais ultimamente, mas ok, escute, vou falar... Ok... Tá bom. Foi assim ó: o Zé conversou com o Chico e o Saul ouviu, e bem, você sabe como é o Saul, caidinho por mim, com aqueles olhos castanhos esverdeados que...
- Lúcia.
- Ok, ok! O Saul me contou que os dois estavam no estacionamento do Colégio da Santa Maria conversando através de sussurros e ele acabou ouvindo. O Chico confessou ao Zé que não queria mais sair toda sexta a noite pra festa da praça, que não se interessava mais em sair a noite ou ficar as tardes na varanda olhando as garotas, que ele estava em outro negócio, O Zé pirou, encheu de desaforos o pobre menino, nem queria deixar ele se explicar... Mas aqui vai a parte importante.
- (...)
- Ok. Ele confessou que nada mais lhe enche os olhos, porque tudo o que deseja ver se encontra nos verdes dos teus olhos, Nina. Que nada mais faz sentido se você não está por perto, que tudo o que quer fazer é estar no quarto, lendo os mesmos livros que tu lê só pra poder conversar contigo, que nada mais lhe importa fazer se não for pra ti. Disse também que não quer mais esperar nas varandas, nem na praça, nem em qualquer outro lugar. Ele não quer mais esperar. Disse que ao cair da tarde, vinha correndo aqui a tua casa pra falar com teu pai, que queria casar contigo, Nina! O Chico!
- Ele disse com essas palavras?
- Não sei bem se com essas, mas falou.
Dei um jeito de me livrar de Lúcia. Ainda faltava vinte para as seis da tarde, alcancei a maleta mais próxima no armário e meti lá todos os livros de que gostava, pulei a janela do quarto e segui o rio até a floresta do Mayne.
No caminho me perguntei o porquê daquilo. Amava Chico mais do que qualquer coisa que já tivesse amado na vida. Mas mais que amá-lo, odiava amá-lo.
19 anos em uma fuga desesperada do amor.
Fui embora e nunca mais voltei. Ainda hoje na cidade, há um cartaz que procura meu nome.
Ainda hoje na cidade, há um rapaz que procura algo que nunca chegou a ter.
- Você... Não... Sabe...
- Lúcia, respire. - Não dei muita importância, queria mais era terminar o livro que estava lendo, Sherlock estava explicando a solução de um crime e eu não queria me distrair.
- Nina, é importante. Tire os olhos desse livro por um instante, por favor? - Fechei o livro, contrariada.
- Nunca é importante, mas fale.
- O Zé estava conversando com o Chico.
- Uhum...
- E ele disse algumas coisas bem interessantes.
- Uhum...
- Pode, pelo menos, mostrar interesse?
- Você divaga muito, menina. Fale logo.
- Tudo bem...
- Anda!
- Ai, Nina, você está estressada demais ultimamente, mas ok, escute, vou falar... Ok... Tá bom. Foi assim ó: o Zé conversou com o Chico e o Saul ouviu, e bem, você sabe como é o Saul, caidinho por mim, com aqueles olhos castanhos esverdeados que...
- Lúcia.
- Ok, ok! O Saul me contou que os dois estavam no estacionamento do Colégio da Santa Maria conversando através de sussurros e ele acabou ouvindo. O Chico confessou ao Zé que não queria mais sair toda sexta a noite pra festa da praça, que não se interessava mais em sair a noite ou ficar as tardes na varanda olhando as garotas, que ele estava em outro negócio, O Zé pirou, encheu de desaforos o pobre menino, nem queria deixar ele se explicar... Mas aqui vai a parte importante.
- (...)
- Ok. Ele confessou que nada mais lhe enche os olhos, porque tudo o que deseja ver se encontra nos verdes dos teus olhos, Nina. Que nada mais faz sentido se você não está por perto, que tudo o que quer fazer é estar no quarto, lendo os mesmos livros que tu lê só pra poder conversar contigo, que nada mais lhe importa fazer se não for pra ti. Disse também que não quer mais esperar nas varandas, nem na praça, nem em qualquer outro lugar. Ele não quer mais esperar. Disse que ao cair da tarde, vinha correndo aqui a tua casa pra falar com teu pai, que queria casar contigo, Nina! O Chico!
- Ele disse com essas palavras?
- Não sei bem se com essas, mas falou.
Dei um jeito de me livrar de Lúcia. Ainda faltava vinte para as seis da tarde, alcancei a maleta mais próxima no armário e meti lá todos os livros de que gostava, pulei a janela do quarto e segui o rio até a floresta do Mayne.
No caminho me perguntei o porquê daquilo. Amava Chico mais do que qualquer coisa que já tivesse amado na vida. Mas mais que amá-lo, odiava amá-lo.
19 anos em uma fuga desesperada do amor.
Fui embora e nunca mais voltei. Ainda hoje na cidade, há um cartaz que procura meu nome.
Ainda hoje na cidade, há um rapaz que procura algo que nunca chegou a ter.
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