terça-feira, 6 de novembro de 2018

Samambaia ao sol

Eu havia comprado uma samambaia pra minha casa, fazia uns dias.
Eu regava ela três vezes por semana, segundas, quartas e sábados.
Enchia a jarra de água e despejava na terra. Não havia prato embaixo para que a água se depositasse, então ela pingava no chão, sem parar por uns 3 minutos, fazendo um tic-tic incessante no chão.

Eu me sentia como ela quando você me tocava. Não era preciso muito. Era só encostar seus dedos na extensão de meus braços, ou no queixo, ou na ponta dos meus dedos, ou encostar seus lábios na minha mão, como carinho, ou apenas depositar o olhar em mim. Logo logo, era um tic-tic por debaixo das pernas. Não havia prato que segurasse.

Feito samambaia irrigada, pronta pra crescer, era o que eu sentia ao seu toque. Como se pudesse dar novas folhas, fazer fotossíntese e crescer.

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Eu era também liberdade, sentada naquela mesa no meio dos livros, enquanto o mundo chacoalhava meus pés - literalmente.
Porque Sartre dizia que somos seres libertos, que mesmo não escolher era escolher e eu vinha não escolhendo. Todo dia eu escolhia não escolher alguma coisa. Eu era então liberta?
Eu, lendo aquelas histórias, totalmente um ser-em-si, eu, daquele jeito, era liberta?

Não me parecia, Jean Paul Sartre.
Alguém dentro de mim vinha fazendo escolhas pelas quais eu não queria assumir responsabilidades. Me isento da culpa.

Aja, aja, faça, ande, aja, tente, aja!
Ou não. Ou não faça nada, mas lide com as consequências.

Bruto.
Tão bruto que nasce o existencialismo. crise existencial. crise. existencial.






Até o texto ficou confuso.

1964

Eu tenho medo
Da roda-viva
Do acordar incerto
Da Moral, Moro, Mordaça

No asfalto o sangue corre
Vermelho-vivo
De uma liberdade que hoje morreu
Mas que amanhã ou depois

Re
nas
ce
rá.

domingo, 21 de janeiro de 2018

5

e ela disse que não. que não conseguiria.
e eu disse que sim, você consegue, a vida passa a todo instante, você já não é a mesma de dois segundos atrás.
e ela insistiu que não, que se assim fosse, ela morreria. não tinha jeito.
e eu afirmei que tudo tinha jeito, que algumas dores são tão fortes que nos dão a impressão de que vão explodir a qualquer instante, e que junto com a explosão, o mundo acaba também, mas não. não acaba, não. é só uma sensação. que o mundo ainda vai existir amanhã e depois de amanhã e que chico buarque estava certo quando disse que APESAR de amanhã ainda é outro dia.
mas ela era muito cabeça-dura e eu entendo. eu entendo que ás vezes o amor é tão grande e tão influenciado por essa sociedade imediatista e extremista que as pessoas costumam não ver solução pra além dele.
porém eu existo. a minha existência passada existe. eu já estive ali, embora esteja aqui agora.
e eu vou gritar pro mundo ouvir que toda dor passa. que até o amor passa.
que esse amor romântico idealizado machuca gente, machuca até no cérebro, sabe?
mas tá tudo bem.
o mundo precisa saber que amanhã, provavelmente às sete horas e treze minutos o sol vai estar nascendo em algum ponto do mar, de uma montanha, e com ele um mundaréu de oportunidades e escolhas a serem feitas.

o amanhã, minha querida, vou insistir para que você saiba, o amanhã vai chegar daqui a algumas horas e talvez não seja lá que você entenderá que tudo vai ficar bem, talvez seja daqui a dois anos, ou dois meses ou talvez você só precise sentar pra se observar e entender que o sofrimento aí dentro é só um exagero vindo do comodismo. de qualquer forma, você vai entender, em algum ponto. e eu estarei lá pra sorrir e torcer por você.

a maturidade é como uma flor que precisa ser regada todos os dias.
um dia vira roseira.