quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Sinta

Sabe, Nina, percebi a dificuldade que temos em aceitar o vazio.
O branco.
O preto.
O invisível, intocável.
Temos dificuldade em aceitar o que não faz sentido, ou até o sentido que nos faça ter sentimentos negativos.
Temos dificuldade em aceitar a secura da vida.
Porque a vida é sim, seca, amarga, por vezes intragável.
Temos que criar um universo de fantasias, utopias, histórias pra podermos nos sentir bem.
Não aceitamos que o nosso corpo é feito de sangue, ossos, pele, e é tão frágil que talvez, um dia, atravessando a rua, dormindo ou comendo, ele acabe se desfazendo e simplesmente pare de existir. Precisamos ter a ideia de que, mesmo que algo aconteça, continuaremos a existir. E não bastante, que esse outro plano seja algo divino, glorioso e que nos traga paz constantemente.
Nina, eu não acredito nisso.
Não acredito que precise existir algo além dessa aridez em que nos encontramos.
Existe o presente, e essa pele que posso tocar. Existe o vento que assola meu rosto e o universo pairando ao meu redor. Existe essa aridez, mas existe a chuva que vezenquando cai, fazendo o solo ficar fértil.
Eu existo, tudo o que eu sou existe. Eu aceito a condição de simplicidade na qual me encontro. Aceito que amanhã posso não mais existir.
Aceito estar aqui e não estar.
Nina, aceito quem és também. E te sinto todo dia, como quem sente as batidas do coração.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Amanhã há de ser outro dia

Escrevo esse texto ouvindo músicas de Chico Buarque, feitas na época da ditadura, no ano de 1964. Estamos em 2016 e mais do que nunca elas fazem todo sentido.

Nossa (agora ex) presidente, Dilma Rousseff, apesar dos inúmeros problemas em sua candidatura, cumpriu muito bem seu papel, sendo reeleita pela maioria da população. A oposição, nada contente, contestou seu governo e atrapalhou-a de todos os jeitos. Acusaram-na e subjugaram-na.

Sinto-me extremamente triste e com um grande pesar no coração. Nossa democracia foi devastada por um senado feito por ricos que nenhum direito tinham de acusar alguém. Consumaram o golpe e entregaram nas mãos da população a obrigatoriedade de lidar com um governo ilegítimo que, mais uma vez, será feito para a burguesia.

Dilma, obrigada. Obrigada por ficar até o fim. Obrigada por aguentar em pé e de cabeça erguida a mais uma vez que te tiraram os direitos e te torturaram. Obrigada por defender e representar as mulheres, por tentar fazer do seu governo, um governo igualitário e justo. Obrigada por governar para pessoas que não teriam chances nenhuma de serem representadas se não fosse por você e pelo seu partido. Obrigada por ser essa mulher guerreira e não se curvar diante dos opressores.

Nós não vamos esquecer. Ficará registrado na história do Brasil o golpe de 31 de agosto.
Michel Temer não será esquecido. E amanhã há de ser outro dia!

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Falhas

Eu, Cristiane, drogada desde os 15, não consigo me levantar. Ontem andei pelo cais de Cabo Frio, com as roupas meio amassadas, meio rasgadas, trocando os pés e a mente. Dizia a mim mesma que passaria, que passará - sabendo que não. 
Não importa, caro ouvinte - Ouvinte, porque leio essas anotações que escrevi, em voz alta.  Não importa se não passará. Quando vives um tempo com algum sentimento dentro de você, ele começa a fazer parte de quem és e de repente nem nota que está lá e que machuca vez em sempre. But it's ok, i adapted anyway. 

E aí eu deito na madeira suja, todo dia, e olho o sol subir no horizonte, com a famigerada e falha promessa de fazer o dia de hoje ser melhor do que o de ontem. Mas nunca é, meu caro, nunca é. Todo dia é uma sucessão de novos semblantes, novos cigarros, novas alucinações, novas esperanças, que logo se vão, junto com o pôr-do-mentiroso-sol. 

Mas hão de saber: toda meia-noite sento na calçada vermelha da Avenida Sexta e escuto Fernando, saxofonista, tocar dentro do bar. E durante aquela uma hora tudo faz sentido. 
A fumaça sobe
O álcool corre nas veias
O jazz toca nos fundos
E você continua me doendo.
Me ardendo
Me fodendo. 

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Nina, de novo

Havia essa mesa. Havia esse par de olhos vagos, longínquos.

Meu café esfriou há 10 minutos e eu continuo na mesma posição. Encarando-a.

E ela sequer nota que estou aqui. Seu corpo presente, mas a mente longe, em outra dimensão, talvez com outra pessoa.
Mexo o liquido frio e viscoso com os dedos, suspiro fundo, quero chamá-la pra perto, quero dizer-lhe tantas coisas – que muito provavelmente devam ficar em silêncio.

- Nina...

(...)

- Nina, eu não sei onde fui parar. Não sei onde fui parar porque te perdi. E eu te sou, tu me és. Não me encontro longe de ti. Não sei quem sou longe de ti.

(...)

- E ás vezes, muitas vezes, enquanto tento te encontrar, vejo você correndo, fugindo. E quase sempre vejo minha sombra sendo a tua e me perco mais ainda.

Ela piscou, os olhos penetrando os meus, impacientes.

- O que estou querendo dizer é que... Sinto sua falta. Sinto sua falta nos cafés, nas músicas que tocam na rádio, nos livros que leio sozinha, no vento que sopra todo fim de tarde, na chuva que cai de madrugada. Sinto sua falta quando durmo e quando acordo, mesmo que você esteja do meu lado. 
Sinto sua falta nas garrafas vazias de vinho, nos filmes de drama que assisto enquanto estás sentada a janela. Eu sinto sua falta.

Ela bebeu seu café – também frio – e deu um meio sorriso. Como se soubesse o que eu estava pensando.

- E eu já não suporto sentir sua falta. Não suporto estar aqui do seu lado, longe de ti. Não suporto não te conhecer mais.

Ela sorriu. Olhou pela janela e tomou o restante do seu café.


Levantei, deixando apenas dinheiro e um livro em cima da mesa. O frio que fazia fora daquele lugar me confortou. Fez-me sorrir. Andei com a pressa de quem foge de algo terrivelmente assustador. E quando olhei pra trás, ela ainda sorria, como se tivesse finalmente se encontrado. Nunca mais a vi.