sexta-feira, 7 de junho de 2019

Paleta de cores

Veja bem Nina, 

Eu andava em farrapos. Farrapos.
Eu não me conhecia, eu não me via como alguém externo a mim. Nina, eu vivia tão dentro de mim, mas tão dentro, que não me enxergava como um ser humano que merecia felicidade. compaixão. carinho. respeito. paz. 
amor.
Nina, eu me maltratei tanto, eu deixei que me maltratassem tanto e eu não via a gravidade disso. 
E eu choro. Eu grito por dentro quando me dou conta disso, porque eu queria voltar atrás e me tratar como alguém digna de todas as coisas boas do mundo, mas não posso. Eu não posso, porque ficou pra trás, porque ficou na lembrança. Daquelas que a gente não lembra direito, só uns flashs meio desorganizados e confusos. 
Flashs que doem o peito quando aparecem. De tão ruins. 
Mas o hoje, pequena, é essa pintura, sendo feita a óleo, em constante mudança, o hoje é essa mistura de arte barroca com a arte não-significada-de-Frida-Kahlo.  Hoje eu me pinto, bordo, costuro, coloro. Hoje, enfim, eu me amo e vejo toda essa mistura de cores que sou. Digna da mais alta apreciação.
Vezenquando eu até me vejo como alguém não pertencente a mim. Alguém que talvez eu possa esbarrar na rua e pensar: que incrível ela deve ser! E sou. Sou dentro de minha particularidade. 

Eu espero que você se veja assim também, eu espero que enxergues em ti tudo aquilo que enxergo em mim e que também enxergo em ti. Eu espero, Nina, que você ao acordar todo dia se sinta digna de amor, porque o és. Cuida bem de ti. 
Daqui, eu te cuido como posso.

Ainda com saudades,

J.

Ir-remediável

Seu corpo desnudo não me trazia vergonha, nem fazia meus olhos desviarem, pelo contrário, procuravam ansiosamente por cada centímetro de pele, de órgãos, de pêlos, de marcas.

meus olhos já não mais fechavam atrás de outra imagem que causasse conforto. porque meu corpo aconchegava na ternura e calor que emanava desse outro corpo.

porque, talvez, naquele momento, o sentido que eu tanto procurava, acabava de encontrar. mesmo que esse encontro não durasse mais que alguns segundos.

porque estar ali era não estar em mim.
e não estar em mim já era muita coisa.

percorrer os dedos pela boca morna, queixo, pescoço, seios, barriga, pernas e não entender como, meu deus, como? o externo se perdia, tanto, tanto, tanto, pelo decorrer dos dias e das semanas.

e às vezes se encontrava
e se perdia
e se achava
e de repente
esvanecia.

e depois se encontrava naquele corpo. quantas vezes fosse preciso.
porque estar ali era bom.

quinta-feira, 6 de junho de 2019

E eu te amei com toda a força que eu podia. Quis te ter tão fortemente que meus órgãos doíam. Te via dormir e sentia como se nada mais pudesse me abalar, porque estar contigo era assim. Contudo, eu quis mais ainda que você fosse real. Que todas aquelas coisas que eu pensava e sentia por você fossem mais do que apenas projeções da minha cabeça. Queria, desejava e ansiava que todo aquele amor fosse real. Como dizia Caio, em um de seus contos: "eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você ou apenas aquilo que eu queria ver em você, eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e se era assim, até quando eu conseguiria ver em você todas essas coisas que me fascinavam e que no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas". E me doía saber que eu amava alguém que nunca existiu. Me dói saber que sinto saudades de alguém que só existiu dentro da minha mente.