domingo, 19 de janeiro de 2020
19 de janeiro
Não é porque não estás aqui que deixei de ser tudo aquilo que vias em mim. Não é porque não se encontras na esquina mais movimentada da cidade, sorrindo ao lembrar de mim, que eu não posso ser a lembrança doce de alguém (inclusive a sua própria). Sua ausência não significa a inexistência de toda complexidade e beleza de quem eu sou. Só não há mais pares de olhos fixos em mim (ainda). Sedentos, devotos, viciados em uma parte de minha alma. Mas costumo sempre dizer: amanhã há de ser outro dia.
sábado, 4 de janeiro de 2020
Baque
Dizem que o que realmente interessava era o baque da cocaína injetável. Eu não sei, porque minha droga era outra. Muitos amigos meus morreram nos anos 80, pela fama que a cocaína ganhou na juventude brasileira daquela época. Amigos que, hoje em dia, só lembro por fotos. Amigos que perdi contato, porque estavam sempre na fissura de conseguir algum trocado para alimentar o vício. Meu caminho se enveredou para outro lado. Minha vida sempre muito parada, muito careta.
Um dia, então, me peguei sedento pela alma de outra pessoa. Eu sei que isso soa como papo clichê ou papo barato pregado nas igrejas, mas não é disso que se trata, viu? Há pessoas que entram em você e se tornam
esôfago, estomago, pâncreas, hipófise, iris, dedão do pé. Correm em suas veias
e artérias. Pulsam no coração. E de repente você se vê em dependência. Capaz de sugar todo sangue daquele outro corpo de uma só vez. E olha, eu não quero que você se assuste, eu sei que você é arisca, como um gato preto de rua, que quer atenção, mas que foge a cada tentativa de carinho. Mas oh, não fica com medo de mim, não. Eu só quero te dizer que... Promete que não vai sair fugindo? É que eu to louco por você, não se assusta. Mas eu nunca me senti assim por alguém e olha que já vivi tanto... Eu tô pensando em você sempre, te vendo em meus olhos, como uma figura sorridente que não sai do fundo da minha cabeça e que a minha retina fica projetando no meu cérebro. Eu não sei bem o que tá acontecendo e se eu não sei, imagina você? Só não vai embora, tá? Vamos descobrir como lidar com essa droga juntos. Talvez o tratamento pra ela esteja até sendo distribuído no SUS e a gente sai ileso dessa. Tomara que sim. Mas se não for, o amor e a paixão são sempre esses riscos constantes.
Eu prefiro tomar esse baque e aí a gente vê como ganhar trocados juntos.
quarta-feira, 1 de janeiro de 2020
Parodoxo rosal
Catarina era vermelha num mar de verde musgo.
Era cercada dessas rosas que já perderam a cor e já não mais renascem. Os brotos ainda muito pequenos para serem chamados de flor. Por isso, e só por isso, Catarina era única naquele jardim.
Contemplada, cheirada, admirada por todos. Brilhante, de cor vívida, com gotas do orvalho da manhã deslizando por suas pétalas, com todo o cheiro possível que uma rosa pode ter, exalando por entre os passeios da cidade.
Catarina já tinha sido broto e seria uma daquelas rosas murchas e sem cor, eventualmente. E por esse evento futuro, certo, mas longíquo, ela aproveitava todos os segundos de sua vida jovem e plena. Não que Catarina quisesse que os brotos não crescessem ou que outras morressem para que ela continuasse brilhando. Não exatamente. Queria que todos, juntas, pudessem fazer parte daquele jardim. Mas ao mesmo tempo não queria ter que dividir a atenção dada com outras.
Catarina era um paradoxo. Aqui, caro leitor, você já deve ter entendido que há entrelinhas. Então posso afirmar, tranquilamente, que ela era ao mesmo tempo um néctar doce, quente, fervilhante onde um beija-flor adoraria saciar-se. Mas havia um quê de veneno. Um veneno lacinante, que mataria uma presa em exatos trinta segundos e que se ela não cuidasse, a mataria também.
Rosa carnívora.
Rosa que, sabendo seu destino, alimenta e posteriormente mata. Mata, porque morre também.
Era cercada dessas rosas que já perderam a cor e já não mais renascem. Os brotos ainda muito pequenos para serem chamados de flor. Por isso, e só por isso, Catarina era única naquele jardim.
Contemplada, cheirada, admirada por todos. Brilhante, de cor vívida, com gotas do orvalho da manhã deslizando por suas pétalas, com todo o cheiro possível que uma rosa pode ter, exalando por entre os passeios da cidade.
Catarina já tinha sido broto e seria uma daquelas rosas murchas e sem cor, eventualmente. E por esse evento futuro, certo, mas longíquo, ela aproveitava todos os segundos de sua vida jovem e plena. Não que Catarina quisesse que os brotos não crescessem ou que outras morressem para que ela continuasse brilhando. Não exatamente. Queria que todos, juntas, pudessem fazer parte daquele jardim. Mas ao mesmo tempo não queria ter que dividir a atenção dada com outras.
Catarina era um paradoxo. Aqui, caro leitor, você já deve ter entendido que há entrelinhas. Então posso afirmar, tranquilamente, que ela era ao mesmo tempo um néctar doce, quente, fervilhante onde um beija-flor adoraria saciar-se. Mas havia um quê de veneno. Um veneno lacinante, que mataria uma presa em exatos trinta segundos e que se ela não cuidasse, a mataria também.
Rosa carnívora.
Rosa que, sabendo seu destino, alimenta e posteriormente mata. Mata, porque morre também.
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