quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

Parodoxo rosal

Catarina era vermelha num mar de verde musgo.
Era cercada dessas rosas que já perderam a cor e já não mais renascem. Os brotos ainda muito pequenos para serem chamados de flor. Por isso, e só por isso, Catarina era única naquele jardim.
Contemplada, cheirada, admirada por todos. Brilhante, de cor vívida, com gotas do orvalho da manhã deslizando por suas pétalas, com todo o cheiro possível que uma rosa pode ter, exalando por entre os passeios da cidade.
Catarina já tinha sido broto e seria uma daquelas rosas murchas e sem cor, eventualmente. E por esse evento futuro, certo, mas longíquo, ela aproveitava todos os segundos de sua vida jovem e plena. Não que Catarina quisesse que os brotos não crescessem ou que outras morressem para que ela continuasse brilhando. Não exatamente. Queria que todos, juntas, pudessem fazer parte daquele jardim. Mas ao mesmo tempo não queria ter que dividir a atenção dada com outras.

Catarina era um paradoxo. Aqui, caro leitor, você já deve ter entendido que há entrelinhas. Então posso afirmar, tranquilamente, que ela era ao mesmo tempo um néctar doce, quente, fervilhante onde um beija-flor adoraria saciar-se. Mas havia um quê de veneno. Um veneno lacinante, que mataria uma presa em exatos trinta segundos e que se ela não cuidasse, a mataria também.

Rosa carnívora. 
Rosa que, sabendo seu destino, alimenta e posteriormente mata. Mata, porque morre também.

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