domingo, 27 de abril de 2014

Amélie, de amora

Ela tinha pintas pelas costas, quase como se fossem
Constelações pelo céu,  formando a ursa maior.
Seu sorriso era capaz de derreter geleiras
Seus olhos tinham uma inocência insana
Sua boca era uma mistura de
Cacau com avelã.
E seu corpo fazia com que eu me perdesse.
Em mim.
Em nós.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Cartas de outubro

Meia noite e 45, sexta-feira, dia 12 de outubro de 2013.

Céu nublado, temperatura amena, temperatura interna -30ºc.

Chico Buarque tocando ao fundo.

Cecília,

Faz tanto tempo que não te encontro que não sei se algum dia te conheci. Te procurei em cada canto desse mundo abastado de ignorância e nada! Te procurei sempre, moça, porque você sou eu e não te encontrei, não me encontrei. Nos perdemos há tanto tempo que não me surpreenderia de já nem sabermos quem somos. E não sabemos.
(E quem disse que é preciso saber? Descobri que não é. A vida fica ainda mais feliz se não sabermos e não nos importamos em saber quem realmente habita na alma. Um mistério a mais).

Esses dias me contasse algo sobre pensar e não chegar a lugar algum, e parabéns, você chegou a melhor conclusão que alguém poderia chegar. O tudo se forma a partir do nada, o caos da paz, o quente do frio, o amor da indiferença.
O mundo gira e para no mesmo lugar, Cecilia, você mais do que ninguém deveria saber disso. A vida é uma incognita, um nó no cardaço e eu queria  te dizer que bastaria desfazer o nó ou resolver a equação, mas nada que valha a pena é tão fácil. Só queria pedir paciência. Pense, continue pensando e continue não chegando a lugar algum, porque ai, na sua vida, vai ter um escape. Depois que chegares a uma resposta, tudo perde a graça.

Ontem, dia 11, peguei um onibus, lotado, com a notoria precariedade do sistema de transporte, e nele havia um velho conhecido. É um homem, de aparência bonita, morador de rua e usuario de droga, vi que ele entrou e o reconheci de longe, tinha o rosto sujo, os olhos assustados, as roupas rasgadas e uma fala rápida. Pegou uma caixa de fosforo e cismou que era um celular, falava absurdos e xingava. Nisso, olho para o lado e vejo pessoas chorando de rir do sujeito. Quis levantar, reclamar, dar um sermão, mas não consegui, sentei e chorei. Chorei porque o ser humano tornou-se algo mediocre e insignificante, que vê no sofrimento das pessoas, algo pra satisfazer o vazio do peito. Sabe, Cecilia, voce me entenderia, você provalvemente choraria comigo. Naquela hora eu quis mudar de planeta, construir uma nova sociedade, sem religião, com a politica baseada no amor ao proximo, numa economia igualitaria, sem precedentes, sem governantes, cada um com sua felicidade e foi aí que chorei, não poderia sair daqui, não por fora. Estava presa num mundo onde as pessoas não me entendiam, aliás, não entendiam nem elas próprias, viviam regradas, obrigadas, retidas em uma rotina predestinada e eu odiava isso. Odiava com todas as minhas forças.

Sabe, não achei nada ainda que possa tirar minha cabeça daqui, não encontrei nem duas de tantas perguntas que tenho. Não procuro respostas, não mais, guardei minhas duvidas na gaveta e elas vão saindo aos poucos, por vontade propria, quase como se aceitassem o livre arbitrio que ''Deus'' dá. Faça o mesmo. Aproveitei mais o sol, a grama, a música e esqueça um pouco o que te incomoda. Falo isso porque preciso fazer o mesmo. Antes que os cabelos comecem a ficar brancos.

Se morassemos em um planeta só nosso, que nome daríamos?
Responda logo.

Com saudade do que não tenho,
Maria Idilia.