sábado, 26 de novembro de 2011

Essas minhas manias

Essa minha mania de trazer à tona o passado. Pessoas que já se foram. Lugares que já passaram. Essa minha mania de tentar encaixar o que não encaixa. Fazer dar certo o que é errado. Amar o odiável. Lembrar o esquecível. Esquecer o inesquecível. Essa minha mania de querer as coisas que não são pra mim, exatamente na hora e no lugar errado. Essa minha mania de ir contra quem eu sou, achando ser o melhor pra mim. Essas minhas manias que vão me esburacando com o tempo.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Nunca parar de querer

Me sinto bem ao teu lado. Mesmo com todos os teus e os meus defeitos. Te quero por perto mesmo quando não te aguento mais, e quando eu acho que não suportaria mais ver o seu sorriso e ouvir a sua voz, você me segura, me olha e diz que me ama. E eu sorrio sem querer. Me sinto viva, me sinto bem. 
Seria engano meu dizer que não te amo também, seria maior engano ainda dizer que não te quero bem pertinho de mim, todos os dias da minha vida. 
Você é a única pessoa que me faz querer nunca parar de querer.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Outros temperos

Aquele gosto estranho sempre volta. Arde nesses lábios. Bagunça os cabelos. De vez em quando, sai de mim, dá uma volta pela rua, e logo volta. Às vezes empurrado, às vezes por vontade própria.
Tento pegar outros sabores, adocicar, salgar, temperar, jogar água, vinho, qualquer coisa. Mas não adianta. Ele nunca vai embora. Continua estagnado aqui.
É necessário tempo. E muitos outros temperos. Uvas, principalmente. Pra tirar você de mim. Mas não se preocupe, uma hora sai, uma hora vai embora, desaparece.
E quando acontecer, serei esperta o suficiente para nunca mais experimentar esse tipo de gosto - sabor. Uma vez que se vai, não há chance de conserto. Só vai, e é preciso coragem para não deixá-lo voltar.
Eu podia te contar muitas mentiras, mas não quero. Não sou nada racional. E, olha, não sei ser objetiva. Enrolo uma vida para falar uma coisa simples. Dou um montão de voltas até chegar no ponto principal. Sempre me perco. Sempre me bato nas coisas, por isso vivo roxa. Ligo sem nenhum motivo aparente, só por ligar, só pra não dizer nada. Sinto raiva. E na hora da raiva falo coisas que nem acredito depois. Fico cega, cegueta mesmo. E depois me arrependo, peço desculpa, tento engolir o que falei (…) Fico descontrolada. E com medo de mim. Furo em festas. Digo que vou, marco hora e não apareço. Não gosto de atender telefone (…) E às vezes eu me escondo das pessoas. Explico: tem dias que vou almoçar no shopping e vejo um conhecido, então eu finjo que não vi o conhecido, entende? Nada pessoal, é que de vez em quando não tô a fim daquele papo de tudo-bem-como-vai-blá-blá-blá (…) Não gosto que gente que mal conheço encoste em mim. E odeio quando tô de blusinha sem manga e sinto o cabelo de alguém encostando no meu braço. Não faço xixi em banheiro público. E tenho mania com lugares. Algumas casas têm uma energia estranha, então nem volto. Não é em todo lugar que me sinto bem. Não sei receber críticas e sou a minha maior crítica. Já deixei de ir em eventos porque estava chovendo (…) Não gosto de ficar em cima do muro, por isso tomo partido, tomo decisão. Minhas opiniões são fortes, assim como meu gênio. Tem vezes que sei ser bem ranzinza, principalmente se estou com alguma coisa entalada na garganta ou de saco cheio de alguma situação. Quando algo me desagrada fecho a cara. Ou fico muda (…) Já fui filhinha da mamãe e hoje vejo como eu fui babaca e joguei pela janela oportunidades únicas só porque elas eram desconfortáveis (…) Dizer que sou uma pessoa bem agradável, amorosa, gentil, bonita e fina. Também podia te contar todas as coisas legais e incríveis que faço diariamente. Eu sou essa mesmo: sem máscara, sem arma, sem retoque, sem nada. Tenho incontáveis defeitos, mas me ofereço inteira: com minhas partes estragadas e boas. Se quiser vem logo pra cá.
Clarissa Corrêa

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Nebraska, seja bem vinda.

A caminhonete azul marinho do meu pai cheira a maconha e a poeira. As portas fazem um rangido irritante toda vez que o carro se balança bruscamente. Mas há UMA sensação incomparável: o vento na cara, metade do braço para fora da janela, the kills tocando no rádio velho e o cigarro - com uma linda marca de batom vermelho, aliás - pela metade. Ah! Sensação merecedora de compartilhamentos. Alguém tão desleixada como eu não poderia apenas deixar mais uma viagem ser esquecida. Uma hora ou outra, eu vou partir, assim como meu pai, e alguém precisa pegar esse meu lugar, e sentir tudo o que sentimos quando entramos dentro deste monte de lata azul.
Papai era um sujeito grande, que tinha esse mesmo cheiro de maconha e poeira, vivia com uma lata de cerveja barata na mão, um cigarro na outra e sua velha jaqueta de couro. Tinha uma barba curta e cabelos até os ombros. Era um bom homem, apesar de tudo. Um pouco ranzinza, mas tinha os melhores braços do mundo, se você deitasse ali, e acabasse dormindo, e acordasse 3 horas depois, ele ainda estaria do mesmo jeito, com seus braços fortes envolvendo seu corpo.
Nem sempre estava sóbrio, mas quando estava, era o cara mais inteligente que eu conhecia, e que tinha a risada mais contagiante do mundo.
Em março, íamos para Nebraska, onde o verão era o mais confortável de todos. Demoravamos dois dias de carro, e eu tinha que controlar as bebidas dele, e quando não conseguia, tinha que levá-lo de arrasto para o banco traseiro enquanto seguia a viagem sozinha. 
Ouviamos todo tipo de música, de Kansas a músicas da nossa pequena cidade. Cantávamos tão alto que nossas gargantas doíam. E quando cansávamos de dirigir, de cantar, e de todas essas coisas, parávamos em algum lugar, no meio do nada, e sentávamos em cima do capô, olhando as estrelas e tomando uma boa cerveja.
Meu pai não era desses tipos de homem que corria atrás de mulher, pelo contrário, elas corriam atrás dele - mesmo sendo um bobo toda vez que passava da sua cota de alcool. 
Iamos naqueles barzinhos de beira de estrada, e eu vivia de olho nele - e em mim, claro. Perdi as contas de quantas vezes foi preciso que eu arrumasse uma briga por causa de mulheres, e o trouxesse para o carro como uma criança de 5 anos afugentada. 
Acho que depois da perda da minha mãe, as coisas se tornaram complicadas, meu pai teve que ser duas pessoas em uma, aguentar a perda de uma pessoa tão amada por ele, e se fazer de forte para mim. Foi tanto que ele não aguentou. Bebia para esquecer dos problemas, eu acho. Para esquecer do rosto da minha mãe em seus pensamentos. Não o culpo por isso, queria poder ter dado forças pra ele enquanto tinha tempo, mas eu era jovem demais, criança demais para encarar as coisas que ele não conseguia encarar. 
Meu pai era um homem digno demais para morrer na nossa pequena casa, naquela maldita cidade onde todo mundo necessitava saber cada detalhe da nossa vida. E é por isso que eu o trago aqui, no banco de trás dessa velha caminhonete azul marinho.
Estou levando-o para Nebraska. Onde ele pode morrer com essa última sensação. De esquecer tudo e apenas enxergar as estrelas no céu.
Agora, essa música que nos marcou tanto, ecoa pelos vidros do carro, e minha garganta, sozinha, dói de tanto cantar, mas não importa! Eu canto. Por mim e por ele. E farei quantas vezes for preciso. Porque como eu disse, meu pai é um homem muito digno para não morrer em Nebraska. 


(Texto dedicado á Dindi).