quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Nebraska, seja bem vinda.

A caminhonete azul marinho do meu pai cheira a maconha e a poeira. As portas fazem um rangido irritante toda vez que o carro se balança bruscamente. Mas há UMA sensação incomparável: o vento na cara, metade do braço para fora da janela, the kills tocando no rádio velho e o cigarro - com uma linda marca de batom vermelho, aliás - pela metade. Ah! Sensação merecedora de compartilhamentos. Alguém tão desleixada como eu não poderia apenas deixar mais uma viagem ser esquecida. Uma hora ou outra, eu vou partir, assim como meu pai, e alguém precisa pegar esse meu lugar, e sentir tudo o que sentimos quando entramos dentro deste monte de lata azul.
Papai era um sujeito grande, que tinha esse mesmo cheiro de maconha e poeira, vivia com uma lata de cerveja barata na mão, um cigarro na outra e sua velha jaqueta de couro. Tinha uma barba curta e cabelos até os ombros. Era um bom homem, apesar de tudo. Um pouco ranzinza, mas tinha os melhores braços do mundo, se você deitasse ali, e acabasse dormindo, e acordasse 3 horas depois, ele ainda estaria do mesmo jeito, com seus braços fortes envolvendo seu corpo.
Nem sempre estava sóbrio, mas quando estava, era o cara mais inteligente que eu conhecia, e que tinha a risada mais contagiante do mundo.
Em março, íamos para Nebraska, onde o verão era o mais confortável de todos. Demoravamos dois dias de carro, e eu tinha que controlar as bebidas dele, e quando não conseguia, tinha que levá-lo de arrasto para o banco traseiro enquanto seguia a viagem sozinha. 
Ouviamos todo tipo de música, de Kansas a músicas da nossa pequena cidade. Cantávamos tão alto que nossas gargantas doíam. E quando cansávamos de dirigir, de cantar, e de todas essas coisas, parávamos em algum lugar, no meio do nada, e sentávamos em cima do capô, olhando as estrelas e tomando uma boa cerveja.
Meu pai não era desses tipos de homem que corria atrás de mulher, pelo contrário, elas corriam atrás dele - mesmo sendo um bobo toda vez que passava da sua cota de alcool. 
Iamos naqueles barzinhos de beira de estrada, e eu vivia de olho nele - e em mim, claro. Perdi as contas de quantas vezes foi preciso que eu arrumasse uma briga por causa de mulheres, e o trouxesse para o carro como uma criança de 5 anos afugentada. 
Acho que depois da perda da minha mãe, as coisas se tornaram complicadas, meu pai teve que ser duas pessoas em uma, aguentar a perda de uma pessoa tão amada por ele, e se fazer de forte para mim. Foi tanto que ele não aguentou. Bebia para esquecer dos problemas, eu acho. Para esquecer do rosto da minha mãe em seus pensamentos. Não o culpo por isso, queria poder ter dado forças pra ele enquanto tinha tempo, mas eu era jovem demais, criança demais para encarar as coisas que ele não conseguia encarar. 
Meu pai era um homem digno demais para morrer na nossa pequena casa, naquela maldita cidade onde todo mundo necessitava saber cada detalhe da nossa vida. E é por isso que eu o trago aqui, no banco de trás dessa velha caminhonete azul marinho.
Estou levando-o para Nebraska. Onde ele pode morrer com essa última sensação. De esquecer tudo e apenas enxergar as estrelas no céu.
Agora, essa música que nos marcou tanto, ecoa pelos vidros do carro, e minha garganta, sozinha, dói de tanto cantar, mas não importa! Eu canto. Por mim e por ele. E farei quantas vezes for preciso. Porque como eu disse, meu pai é um homem muito digno para não morrer em Nebraska. 


(Texto dedicado á Dindi).

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