quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

As pernas

As pernas. Sempre as pernas. Jogadas pelo sofá. Nuas. Seminuas. Com meias três-quartos. As pernas sempre a minha vista, sempre acompanhadas de duas mãos com um livro entre elas, ou com um café, em dias ruins, vinho branco.

No primeiro dia em que as vi, estavam acompanhadas de uma saia, por debaixo de uma mesa num café perto da praia. Encarei-as por muito tempo antes de encontrar o par de olhos verdes, também me encarando. Depois veio o sorriso, mas não um qualquer. Um sorriso que dizia tudo que não poderia ser dito com palavras. Naquele mesmo instante, eu comprara um café e sentara a sua frente. Eu sorria também, porque olhar para aquela mistura de sorriso com olhos verdes, fazia minha mandíbula abrir, involuntariamente, quase como o meu miocárdio.
E passamos cinco terços de hora em silêncio. Eu bebia meu café, ela abria o livro, eu olhava suas pernas, ela sorria, eu sorria, eu acendia um cigarro, ela pedia mais um café, eu olhava suas pernas novamente.

Depois disso, vivíamos juntas.

Eu, ela, suas pernas, o verde de seus olhos, os livros e os vinhos. Não havia muitas palavras, mas eu quase sempre queria dizer o que pensava. Quase. Porque se disse uma vez que amava quem ela era, fora muito.

Mas queria dizer que a amava. Que a amei desde o primeiro minuto que olhei seu corpo, que senti seu cheiro, que ouvi seu sorriso. Queria dizer que seu signo combinava com o meu, que no meu, câncer estava em marte e que eu havia feito o mapa astral dela, e ela também tinha câncer em marte! Ou então capricórnio ou touro, mas que combinava com o meu. Disso eu lembro, combinava com o meu. Os planetas diziam que devíamos ficar juntas! E mesmo que eles não dissessem, claro que devíamos.

Eu também queria dizer que a meia preta fica mais bonita que a marrom,  porque o tom da pele branca dá mais contraste. Queria lhe dizer que quando dorme, ela sempre sonha com algo ruim, e eu canto para que durma de novo, embora eu ache que ela nunca tenha mesmo me ouvido cantar. Dizer também que adoro a salada de frutas que faz toda manhã, porque eu teria preguiça de fazer. Dizer que amo o jeito que ela ri de vídeos de gatos, ou o jeito que chora quando acha algo, simplesmente, bonito. Dizer que amo a ver dançando. O jeito que balança aquelas pernas, que mexe a cintura e faz uma cara de louca segurando o controle remoto como microfone. Que amo o jeito que ela segura o livro quando lê, e faz caras e bocas, como se estivesse dentro do livro e dele fizesse parte.
Dizer apenas que desde o dia que a conheci, a observo como quem observa o pássaros pela janela. Como as criaturas raras, intocáveis e livres que são. E não há nada que eu gostaria mais de fazer do que olhá-la todos os dias e me sentir grata por fazer parte da existência de quem ela é.

Mas só penso. Só penso porque tentar explicar o quanto amo todos os detalhes de todas as suas ações, seria trair meus sentimentos, porque sempre fica algo pra trás, algo que não se põe em palavras. Por isso me limito a sorrir, e pelo jeito que ela me sorri de volta, deve saber.

Nenhum comentário:

Postar um comentário