terça-feira, 3 de setembro de 2013

Carta de Setembro

Prezada e saudada Nina,

Os dias tem sido caóticos. Como se só acordar me causasse uma úlcera estomacal. Você sabe aquela sensação de que o ano está correndo como se fosse apenas um mês? É o que tem me acontecido. Não lembro da minha vida ontem, nem ante ontem, nem semana passada, é como se só houvesse o hoje e a vida não passasse de um borrão em que eu tenho tentado com todas as forças evitar.

Há certos dias desses que vejo o quão frágil a vida pode ser, como ela está suspensa em um fio fino, prestes a arrebentar, totalmente quebrável e irrecuperável. Mas dentro desses próprios momentos é como se não fizesse diferença. E se o fio arrebentasse? A vida cairia no chão ou passaria direto, como um fantasma que atravessa paredes? Seria melhor depois que ela se partisse em cacos ou pior? Não sei, Nina, não sei. Acho que não pegaria uma tesoura e testaria eu mesmo. Mesmo por todos os motivos, por toda a minha curiosidade, eu provavelmente jogaria a ideia embaixo do tapete e leria um livro naquela poltrona marrom encardida.

Ontem, perto da rua da saudade, enquanto tinha esses pensamentos, lembrei de você. Lembrei que poderia muito bem te mandar uma carta e te deixar sabendo dessas ideias sem sentidos, e mesmo que você não se importe – que talvez nem leia essa carta quando ver meu nome - quis colocar nesse papel branco, com umas manchas de café da manhã de ontem, e fingir que você ainda presta atenção no que sinto. Olha Nina, eu já te via por todos os cantos, em todas as sombras, em todas as músicas. Começou a ser demais pra minha cabeça, sabe? Eu quis ir embora antes que você fosse, só pra não ter que te ouvir dizendo adeus, porque eu sabia que você diria, mas não deu tempo e eu estava errado. Você foi antes do que eu pensava que iria e não disse nada, apenas foi. Tive certeza de que conhecias minha alma e leu no meu olhar a resposta pra tua fuga interior.

Naquela segunda eu sentei no banco da Praça Luiz Bandeira e devo ter ficado por muito tempo, porque lembro de estar tão quente que o sol queimava minha pele e quando me dei conta estava frio e escuro, mas eu não vi nada passar em minha frente, só aquela flor amarela saindo curvada do solo, como se o peso da curta vida já estivesse deixando-a de ombros carregados. Esperei lá por alguém chamado destino, que talvez me cutucasse no ombro e te trouxesse nos braços e gritasse “SURPRESA” no meio da praça, mas convenhamos, soa surreal, como eu costumo ser desde que nasci. Devo ter esperado assim durante uma semana e alguns dias, mas como disse no começo desta carta, não lembro muito bem dos dias, pode ter sido um mês, dois meses, aliás, quanto tempo faz que você partiu, moça? Julgando pelo meu coração, faz 10 anos. E talvez seja.

Nina, você tem que saber dessas coisas, de como a vida pesa e ao mesmo tempo é fraca e frágil, de como pode ser longo o tempo de alguém que nunca deixa de amar, de como pode ser curto o tempo de quem desaprendeu a viver, e de como a espera por outra pessoa pode ser um processo incurável. Você precisa saber, morena, precisa.
Eu queria ir embora também. Todo mundo quer ir em algum momento.
Mas é o ficar que faz diferença.

Não sei teu endereço, não sei onde estás, não sei nem se o fio da tua vida ainda está intacto, por isso esta carta vai ter o endereço da rua da saudade, do bairro da praça, com o número do solo daquela flor.
Algo entre o nós ainda tem que permanecer, qualquer coisa, nem que seja um papel manchado de café.

Com sincero apreço por cada parte de ti,

Seu outro eu.



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