sábado, 13 de abril de 2013
A refletora de almas
Era um dia chuvoso e havia esquecido o guarda chuva. Seus cabelos dourados pingavam sem parar, exatamente como sua alma. Tirou uns trocados perdidos no bolso e jogou no chapéu do moço de cabelos compridos, que com uma viola despedaçada, tocava bossa nova. Andava desviando das poças, o olhar absorto no chão sujo, até chegar no ponto que sempre parava. Colocava a mão no vidro e olhava os novos livros lançados, desejando-os, forçando os olhos para ler os comentários na capa de trás, forçou tanto que viu seu reflexo no vidro, nunca havia reparado, pensou. Olhou seu rosto molhado, seus olhos fundos, sua pele pálida, tocando o próprio rosto. Como pude eu, tão analisadora de almas alheias, pensamentos alheios, histórias de personagens ficticios, moradora de outro planeta, deixar o que eu tinha de mais importante ficar sem cor? Branco, leitoso, viscoso, repugnante. Minha alma era vermelha, exaltou-se, cor de fogo, cor de raiva, de amor, como pude, como pude? Pensou, em gritos, em súplicas, em choros sem lágrimas. Aterrorizando-se pelo resto da vida, cada vez que chovia e via seu reflexo nas poças.
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