sábado, 9 de março de 2019

8M

Eram 06h da manhã, ainda escuro, um calor grudento de um quase-outono desagradável. 
Veio andando pela rua, meio tonta, com um sabor estranho na boca. Talvez fossem as lágrimas que nunca chegaram a rolar pelo rosto, pensou ela. Dia 08 de março. oito. 
Já tinha recebido os parabéns. Parabéns por ser mulher, parabéns, linda, parabéns, mas... Aquela vagabunda tem que deixar se revistar pelos policiais homens, pra quê ser mulher policial? Se quando é pra macho passar a mão elas gostam. Parabéns, bonita. Parabéns? Ela não tinha entendido. 
Continuou andando, lembrando que depois do parabéns, uma mulher sofreu um estupro há 4 km de onde ela estava. Parabéns, por ser assim tão feminina, por ser assim tão... mulher. 

Dormiu. 13h da tarde. Acordou com um peso. Peso de que, meu deus? 
Passou o batom vermelho, saiu de casa. Abraçou e beijou a barba de quem se gosta. Abraçou e sentiu o volume por meio das calças, desejo, vontade, delírio. Um cuidado e carinho masculino diferente do que se tinha quando andava sozinha às 06h.

18h. Um cheiro de cerveja. Cheiro de mulher. Vozes de mulher. Parabéns, moça forte, guerreira. Parabéns. 
Agora entendia. Mas o que havia feito pra receber tantas felicitações?
Mulheres seguravam seu braço. Mulheres sorriam pra ela. "Parabéns por resistir". 
Sentiu vontade de chorar, porque resistia todo dia, em todo lugar. Parabéns por ser forte? Por conseguir aguentar sem querer morrer? Merecia.

21h. Andava sozinha novamente. Cheiro forte de cerveja e cigarro. No silêncio da rua, ao longe, ouvia "O feminismo é a revolução, revolução, revolução..." Sorria. Parabéns, disse pra si mesma.

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