A luz do dia estava findada. E o frio da noite estava começando a findar. Meus pés, molhados, se deliciavam no chão gelado, e as gotas da chuva escorriam pela minha pele branca. Apostando corrida entre as curvaturas do meu corpo. Olhei para cima e enxerguei a gigantesca árvore de ipê, minha visão estava embaçada e a chuva não cooperava. Atravessei a rua lentamente e toquei em seu tronco, as folhas amarelas no chão eram macias, e a grama fazia cócegas em meus pés. Sentei ali perto e apertei meus cabelos, fazendo meu vestido mais enxarcado do que já estava. Olhei a minha frente, e tudo o que eu via era uma fumaça, branca e densa. Respirei fundo, tentando encontrar alguma base, qualquer que fosse, que me fizesse lembrar daqueles dias do passado.
A chuva fazia aquilo comigo, me fazia relembrar o passado, me fazia tentar, com todas as forças, encontrar vestígios de uma memória quase invisível. Totalmente densa e branca, como a tal fumaça em minha frente. Não diria que seria bom tê-las de volta, mas eu precisava sentí-las de novo. Lembranças são lembranças. Mesmo que sejam ruins, não queria que elas fossem lentamente apagadas. Mudei de posição e senti a chuva em meus lábios. Chuva não tinha um bom gosto. Era... Amargo. Talvez como algumas memórias minhas.
Coloquei meu pé em uma poça da água, e sorri. Algumas imagens vinham a minha cabeça e me deixavam, constrangedoramente, bem. Um sorriso aparecia involuntariamente e me fazia ter raiva por dentro.
Sempre fui assim. Sempre me puni. Por gostar das coisas, por amar as coisas, e por deixar com que elas me invadissem por completo. E depois? Bom, depois elas virariam lembranças. E eu viria na mesma árvore de ipê, e ficaria ali até o dia amanhecer, com a esperança de que pudesse reviver algo. Na esperança de que pudesse voltar no tempo. De ser exatamente como antes, da forma que eu sempre quis ser. Sem mudanças.
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