O relógio marcava 05:30 da madrugada. Meus olhos estavam vermelhos, meu cigarro estava no fim, quase queimando meus dedos. Minha pele estava arrepiada com o vento gelado que entrava da janela. Coloquei meus pés pretos de sujeira em cima da cama, deixando duas marcas enormes. Se minha mãe visse isso, estaria decepcionada. Pensei. Olhando para minhas roupas amassadas e as marcas sujas no lençol branco. Lancei os destroços do meu cigarro pela janela, e me arrastei para alcançar o novo maço de cigarro em cima da cômoda. 05:40. Traguei mais rapidamente o novo cigarro. E de algum canto dos becos lá embaixo, vinha uma música entorpecida, fúnebre, um violão suave, quase inaudível, seguido de uma voz rouca, bêbada e entrepassada por outras vozes falantes. 06:20. 1992 e uma madrugada incomum. Peguei meu espelho jogado em cima da escrivaninha e analisei por alguns segundos meu rosto, barba mal feita, cabelo bagunçado, olheiras profundas...
- A realidade é que sem ela não há paz, não há beleza, é só tristeza. - Cantarolei a música que subia pelas paredes do meu prédio, reconhecendo a música de vez. Tom Jobim. Uma versão muito mal tocada da música, mas a letra ainda me fazia sorrir sem querer. Olhei para meu cigarro, e o joguei pela janela novamente, sem nem estar na metade. 06:33. Madrugada incomum, já falei, certo? Deixe que lhe explico. Passava essas horas dormindo, acordava cedo, vivia cedo. Mas aí, eu acordei, e parei de fingir. Uma coisa fora do lugar, e pronto, tudo está uma completa bagunça. Então, por que não completar o serviço? Resolvi ver o sol nascer, provar cigarros que eu nunca havia tragado (minha cômoda tem 5 maços diferentes) e sentir o vento da precoce manhã invadindo meu quarto. Foi um grande pensamento para um pequeno homem como eu. Agora, reparando, o meu quarto fica mais bonito iluminado com a lua do que com o sol, o céu de noite é mais bonito que de dia, esse cigarro marrom é mais suave que o de ponta branca, Tom Jobim tem composições tão boas que não importa quem esteja tocando-as, meu rosto de menino afugentado e cansado é mais bonito que o de homem trabalhador. Mas uma coisa não mudou ainda: o tamanho da falta que sinto de você. Acho que lá, no fundo, a gente sabe que a saudade será sempre a mesma. 06:45. O sol tá nascendo.... Hora do menino ir crescer.
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