- Você nunca faz nada! Nunca fala nada! - Elevou o tom de sua voz enquanto atirava as roupas em cima da cama. - Parece uma retardada.
A moça de cabelos ruivos continuou sentada, com um olhar inexpressivo atravessando a grande janela do quarto, fumando seu terceiro cigarro, expirando fumaça pelo ambiente.
- É assim. Você começa coisas que sabe que não vai terminar. Você nem quis me dar explicações, apenas me olhou desse jeito rude que sempre me olha! Não sei como fui capaz de ficar tanto tempo com uma mulher assim. Deus, como sou idiota. - Cuspiu as palavras, grosseiro, enquanto ainda tirava suas roupas do armário. Ela olhou o jeito que ele se movia, nervoso, piscou algumas vezes, e moveu a cabeça devagar para o trânsito caótico lá embaixo. Não ouvia as buzinas do carro, pensou, nem as palavras obscenas que os motoristas dirigiam um aos outros, nem mesmo alguns aviões que passavam acima de sua cabeça, não ouvia nada, a não ser as reclamações do marido, ou ex marido, do outro lado do quarto.
- É foto pra lá, foto pra cá, maço de cigarro jogado num canto, roupas sujas no outro, e essa sua cara de quem não tá vendo nada ao seu redor. - Disse ele numa tentativa frustrada de imitar a feição da esposa. Ela o olhou, séria, e recolocou o cigarro na boca antes que quisesse falar algo.
Ele fechou a mala com dificuldade e ficou parado durante alguns segundos, encarando-a, esperando, de certo, que ela falasse algo, mas ela não iria falar, ele sabia.
- Estou indo, Martha. Há algo que queira falar? Alguma coisa? Por favor. - Disse ele debochado, fazendo gestos irônicos com as mãos. Ela o olhou mais uma vez, jogando um pouco de fumaça em direção ao rosto dele. O homem moreno soltou um riso dolorido, de alguém que não acredita. E saiu, fechando a porta com um estrondo odioso.
- Eu te amo... - Cochichou ela, deixando uma única lágrima cair. - Não vá.
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