domingo, 14 de outubro de 2012

Joana, liberdade insaciada


Eu sabia que tinha sorte na vida quando encontrava uma joaninha. Isso só aconteceu 2 vezes, com exceção de ontem. Na primeira vez eu tinha 5 anos, o pequeno inseto pousou em minha mão gorducha e andou pela extensão do meu braço, extasiado eu a observara, suas pintinhas pretas sobre a camada vermelha refletiam sobre meus olhos. Nunca vira um inseto tão bonito na vida, nunca o quisera tê-lo como ''animal de estimação'', mas naquela vez havia sido diferente, queria que a joaninha se tornasse minha melhor amiga, mas então ela voou, voou longe, sem saber que ela poderia voar, tentei alcançar, mas era tarde demais. Só tive um reencontro com 15 anos, ela me pousou no nariz, fazendo cócegas, por pouco não a esmaguei com um tapa, fiquei uns 10 minutos com ela em meu dedo, observando a liberdade incontida nas asas secretas debaixo da carcaça, e novamente senti aquele desejo de nunca ter de deixá-la ir embora, seria estranho falar, mas um pequeno inseto despertava dentro de mim uma vontade de sair correndo pela chuva, sentir as gotas geladas em meu rosto, sentir nada mais, nada menos, do que a liberdade do vento, da água, da natureza, da joaninha na minha pele, no meu corpo, na minha alma. Mas então, ela parou de se mexer, ficou estática, morreu. E o desejo de ser livre morreu junto com ela.

Ontem, dia 15 de inverno, durante um dia nebuloso, outro tipo de joaninha veio até mim. Com meus 33 anos, nunca havia visto uma destas. Era amarela e tinha duas anteninhas paralelas e desengonçadas. Novamente, senti aquele estranho desejo de a pôr num vidrinho e mantê-la pra sempre do meu lado, para ter esse sentimento de liberdade aflorado em meu peito. Olhei-a por uns 15 minutos, queria sentir lá no fundo, a corrente pulsando em meu cérebro e em meu coração, queria saborear um momento aquele borbulhar de adrenalina em minhas veias. Mas de repente, vi que tudo estava errado. Eu exigia de um inseto uma liberdade que eu não queria dá-lo. Eu queria o manter preso pra saciar meus próprios anseios.
Queria o prender em troca da minha liberdade. Nunca tive um nó no peito como aquele. Nunca tive que fazer uma escolha tão difícil na vida. Coloquei-o na ponto do meu dedo e soprei com força, como quem diz ''vá, vá antes que seja tarde demais, vá antes que a razão da insanidade te prenda pra sempre''. E ela foi, farfalhando as asinhas. Então descobri que não tinha sorte na vida.

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