Eu dei um nome pra ela. Morgana. Porque Morgana parece nome
de vilã de filme de terror, daquelas que te matam no fim da película.
Era isso que ela fazia comigo, me matava um pouco todo dia. Me
fazia enxergar o mundo através de uma lente suja, cinza esmaecida.
Às vezes eu via tudo muito rápido, como se o mundo corresse
e eu tivesse ficando para trás. Mas por vezes, também era tudo em câmera lenta,
e só eu corresse, sozinha, sem rumo. Ouvindo as pessoas, as risadas, as
conversas, como se eu estivesse muito distante. Eu não via sentido em muita
coisa desde que Morgana veio. Não queria comer, porque a comida não tinha graça.
A vida lá fora, também não. O único lugar que me trazia o mínimo de segurança
era minha cama, pois ali não tinha o olhar do Outro, não tinha comparação. Só
existia eu. E Morgana.
Às vezes ela sussurrava em meu ouvido coisas que, no fundo,
eu sabia que não eram verdades. Dizia pra mim que as coisas nunca fariam
sentido, que nem sabia como eu havia parado ali e como eu permanecia ali. Dizia
pra eu ir embora. “É melhor ir embora, talvez do outro lado, você arranje algum
sentido pra esse vazio”. Eu pensava em ir, mas desistia. Me achava covarde
demais até para sair dali. Acordava no meio da noite, com a respiração
ofegante, a sensação de morte.
E então, de algum
lugar, me veio a vontade de procurar ajuda. Eu não gostava de quem eu era com a
presença de Morgana constantemente em minha vida e eu decidi que precisava que ELA
fosse embora, não eu. Tomei umas pílulas que caíram em minhas mãos e conversei
com um par de olhos que sabia exatamente o que falar pra me ajudar.
Seis meses sem Morgana. A falta ainda existe em meu peito,
talvez sempre exista, mas eu escolho o significado e o que faço dela. O mundo ainda
não tem cores vívidas, mas também não é cinza. O ritmo do mundo acompanha o meu
e eu me sinto parte dos corpos, dos olhares e dos sorrisos que andam pelos ônibus,
estradas e recintos. E esse vento que bate em meu rosto e assopra meus cabelos
me faz lembrar que eu estou viva. Que escolhi estar viva. E que escolho todo
dia, apesar de Morgana.
Uau... Não tem cores vívidas, mas também não é cinza.... Perfeito
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