Dizem que o que realmente interessava era o baque da cocaína injetável. Eu não sei, porque minha droga era outra. Muitos amigos meus morreram nos anos 80, pela fama que a cocaína ganhou na juventude brasileira daquela época. Amigos que, hoje em dia, só lembro por fotos. Amigos que perdi contato, porque estavam sempre na fissura de conseguir algum trocado para alimentar o vício. Meu caminho se enveredou para outro lado. Minha vida sempre muito parada, muito careta.
Um dia, então, me peguei sedento pela alma de outra pessoa. Eu sei que isso soa como papo clichê ou papo barato pregado nas igrejas, mas não é disso que se trata, viu? Há pessoas que entram em você e se tornam
esôfago, estomago, pâncreas, hipófise, iris, dedão do pé. Correm em suas veias
e artérias. Pulsam no coração. E de repente você se vê em dependência. Capaz de sugar todo sangue daquele outro corpo de uma só vez. E olha, eu não quero que você se assuste, eu sei que você é arisca, como um gato preto de rua, que quer atenção, mas que foge a cada tentativa de carinho. Mas oh, não fica com medo de mim, não. Eu só quero te dizer que... Promete que não vai sair fugindo? É que eu to louco por você, não se assusta. Mas eu nunca me senti assim por alguém e olha que já vivi tanto... Eu tô pensando em você sempre, te vendo em meus olhos, como uma figura sorridente que não sai do fundo da minha cabeça e que a minha retina fica projetando no meu cérebro. Eu não sei bem o que tá acontecendo e se eu não sei, imagina você? Só não vai embora, tá? Vamos descobrir como lidar com essa droga juntos. Talvez o tratamento pra ela esteja até sendo distribuído no SUS e a gente sai ileso dessa. Tomara que sim. Mas se não for, o amor e a paixão são sempre esses riscos constantes.
Eu prefiro tomar esse baque e aí a gente vê como ganhar trocados juntos.
Me dá um autógrafo? Me auto proclamo fã número 1.
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