quinta-feira, 28 de abril de 2011

Relíquias

Estava tudo empoeirado, se um dedo limpo e puro, passasse por ali, com certeza, sairia preto. As madeiras do chão faziam um barulho irritante toda vez que recebia um peso, as janelas estavam soltas, e qualquer arzinho que encostasse nelas, as abria completamente, as portas, já, com sinal de arrombamento, dava-lhes de graça, farpas e convicções não muito receptivas. Os móveis estavam cobertos com lençois brancos, já amarelados pela poeira, e o cheiro, que se sentia do quintal, era insuportável.
A mulher dos olhos pretos e vazios, andava devagar por entre a casa, olhando cada detalhe, tocando tudo o que estava em sua frente, e cheirando cada partícula dali, sim, mesmo que o cheiro fizesse as narinas arderem. Sentou em um canto do sofá, segurando seus joelhos junto ao queixo. Sentindo toda a nostalgia imersa dentro da casa, lembrando de como costumava ser antes e de que sentimentos lhe trazia. Algumas lágrimas lhe desceram a face, e curiosa, sua própria consciência perguntou-lhe, como num debate entre apenas uma pessoa:
- O que é isso? Digo, o que você está fazendo?
- Estou dentro de mim.
- Dentro de você?
- Veja, essa casa é o meu coração, perceba como ele está. E embora me doa, ter de vê-lo desse jeito, foi a única coisa que me sobrou.
- Mas..
- Sem mas's. Já não sou suposição de mim mesma. Esta é a realidade, e eu estou encarando-a.

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