quinta-feira, 9 de junho de 2011

Fire

O relógio marcava meia noite e um. O vento frio entrava pela frestas da porta e a madeira sofisticada rangia silenciosamente. Cheirou, sem interesse, o vaso de flor ao seu lado, cheio de rosas. Colocou o cigarro entre os dedos e tragou, enquanto a outra mão balançava uma xicara de café. Olhou para o computador a sua frente, a página em branco, e a sua mente vazia. Recostou-se na cadeira e deixou sua cabeça pender, deu mais uma tragada e deixou o cigarro ali, repousando, sozinho. Levou os dedos magros e longos ao teclado sofisticado do computador, hesitou, parou, e olhou. Fez um sinal negativo com a cabeça, como se precisasse do apoio de alguém. Bufou. Voltou com seus dedos ao teclado, e digitou, rapidamente. ''Fogo''. Que diabos fogo tinha a ver com aquilo que queria escrever? Aliás, que precisava escrever? O relógio anunciou: meia noite e cinco. ''Fogo, seu corpo estava no fogo. E eu o olhava de longe, queimando, sem dor alguma.'' Ok, seu texto estava indo para um lado assassino da história. Ele precisava fazer uma crônica para publicar no jornal, antes que amanhecesse o dia, era meia noite e tudo o que lhe vinha à cabeça eram chamas, e chamas, e calor. Mas que diab... ''Embora lá estivesse fazendo calor, tudo o que eu poderia sentir era um bom cheiro. Parecia mais com... Flores? Flores. Eu até conseguiria vê-las, de longe, mas as chamas encobriam, enegreciam a minha visão''. Meia noite e dez, seu colunista! E tudo o que você consegue escrever é uma mistura de inferno, flores, e calor? - Dizia sua mente, aborrecida e de mau humor. ''Flores que, embora sem beleza, tiravam o cheiro de enxofre''. Olhou seu computador, rindo do que escrevera, tudo sem sentido. ''Os ventos uivantes, de qualquer direção, apenas faziam com que as milhares chamas se multiplicassem, crescendo e tomando formas cada vez maiores''. A impressão de que tinha era que suas idéias estivessem virando realidade, sua testa pingava, seu cabelo estava molhado, e o calor que estava sentindo era insuportável, mas não podia parar, embora o texto estivesse sem sentido, era melhor do que nada. ''Aquele lugar não parecia ter fim, tudo era escuro, e meus olhos, irritados, não enxergavam mais nada''. Pegou um pano numa gaveta, e enxugou seu rosto suado, enquanto sua pele borbulhava num calor inexistente. ''Eu ainda tinha pernas, e eu poderia correr, mas não sem olhos. Não tardou para que o fogo me alcançasse e eu caísse em meio as chamas, até que as mesmas consumissem até a minha alma''. Sorriu, aquilo não lhe parecia uma crônica. Mas gostou, de alguma forma, do que tinha escrito. Levantou-se para pegar o seu cigarro, e se deparou com ele jogado ao chão, queimando as paredes, os móveis, os outros computadores, e vindo para cima dele. E tudo o que conseguia pensar, naquele momento, era em flores. Apenas nelas. Nem ao menos lembrou de como sair dali, se entregando ao fogo de seu próprio raciocínio.

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